Contra-luz
- gabriel gonçalves
- 20 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 25 de jun. de 2025
Crônica por: Izabel dos prazeres, que também é Bel-prazer.
A primeira vez em que me dei conta da existência do termo “bel-prazer” foi, acreditem, lendo a Bíblia. Mais especificamente em Colossenses 2: 18-19:
18 - Ninguém vos domine a seu bel-prazer, com pretexto de humildade e culto dos anjos, metendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão,
19 - e não ligado à cabeça, da qual todo o corpo, provido e organizado pelas juntas e ligaduras, vai crescendo em aumento de Deus.
A princípio, pensei apenas em como era bonito e soava bem aos ouvidos. Já tinha ouvido outras vezes, conseguia até mesmo entender os seus usos, mas não sabia sua origem e nem seu significado exato. Pesquisei então e encontrei algo como: “Segundo sua própria vontade ou arbítrio”, exprimindo, textualmente, um desejo exacerbado. Se perceberem, tudo nesses versículos é hiperbólico. Crescimentos, inchaços… Usar bel-prazer ali parece especialmente coerente. Um dos poucos acertos do tradutor.
Minha apreciação parte de um lugar de identificação: também tento me construir com hipérboles. Logo eu, tão distante dos números, fui castigada pelo universo com o desafio de calcular com quantas faltas se faz um excesso. Por sorte, sou meu próprio objeto: feita de ausências, consigo ver no espelho tudo aquilo de que fui privada ao longo da minha curta vida. Talvez o pelo bairro onde nasci, aquele morro chamado de Céu, onde a falta do estado se faz regra. Talvez pela família cristã que me impôs a fé e como consequência veio o drama da negação de uma sexualidade plena. Seja pelo que for, primeiro nasci Izabel, os prazeres vieram depois.
É triste que agora, depois dessa caminhada com vocês, eu perceba que todas as bandeiras que levantei não passem de uma máscara para esconder tudo que rejeito. É triste perceber que se hoje sou esse estandarte de liberdade e prazer é porque no fundo fui pouco eu de verdade. Se hoje tenho que exagerar é porque um dia tive que conter. E contive tantas partes fundamentais de mim que é difícil saber o que sou eu e o que são as lacunas.
E eu percebo minha hipocrisia nos detalhes. Minha sombra se revela quando sou posta contra à luz de alguém que pensa diferente. Sempre que vejo alguém mais livre do que eu ou que não usa meus parâmetros de liberdade. Sempre que observo um novo nível de desprendimento, sempre que atinjo o limite da minha desinibição e despudor. Como pode ser que dentro dessa matrona-imoral habite uma mulher tão conservadora? Que ainda nem furou as orelhas, não tatuou o corpo, que evita roupas justas e é tão conciliadora, politica e socialmente? Que ainda tem pudor em ser beijada em público e andar de mãos dadas. Que julga e que quer a homogeneização do mundo em sua própria visão do que é certo. Que profana com orgulho, mas que tem suas bases em dogmas tão sagrados. Que liberdade é essa? Não me parece correta. Bel-prazer é um personagem, Izabel é uma farsa. Peço perdão.
Na reta final desse processo, vejo que estou ligada a quem me escreve, intrinsecamente. Não por ser igual, mas por ser diferente. Não sou Bel-prazer, nem ela é eu. Somos o que a luz revela em nossa frente. A mancha preta que se estende pelo chão. Somos mais sombra do que gente.

que texto incrível, sem palavras! parabens Bel
Bel, chamo-te assim porque me sinto íntima! Sou uma grande fã da sua belíssima escrita. Confesso que a cada temática fiquei ansiosa para o choque que você sempre deu. Espero que Bel vá além deste blog. Torço para que o mundo conheça a Bel!
Uma das melhores crônicas que li aqui. Sempre me pego refletindo após ler os seus textos. Um talento indiscutível. Espero que continue escrevendo, ainda que pra si mesma, após o término dessa disciplina.
Bel, me faço mais que grato pela honra de ler mais um de seus extraordinários textos.
A introdução com a Bíblia, confesso que foi surpreendente. E você sabia que seria. A narrativa, você se contradizendo, se questionando sobre si mesma, questionando e se frustrando com seu exagero limitado, até você tem um teto para o excesso. Todos temos. Você é uma escritora impressionante. Não tenho dúvidas que é a melhor que tivemos e temos.
Foi um PRAZER inenarrável ler suas tantas crônicas, sempre envolvidas até o pescoço com sentimento e personalidade.
Agradeço mais uma vez pela honra de ter sua companhia nessas últimas semanas, e já estou chateado de não lê-la novamente na próxima semana. Boa sorte na sua caminhada…
Bel foi um privilégio ler seus textos durante esse período. Cada crônica fazia uma reflexão não só sobre a sua pessoa, mas também, sobre a minha. Acredito que todos nos, até os mais tímidos, temos um pouco da “bel”, um pouco dessa determinação e “pouca vergonha” que você é preenchida por. Agradeço por cada palavra e novamente, foi um prazer.