top of page

Contraponto

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 25 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

Crônica por: Jorge M


Ninguém pediu, e possivelmente ninguém leu, mas eu vim me retratar.

Sou bastante movido pela objetividade. O pessoal até me zoa por isso, por eu dizer que objetividade é tudo, talvez até demais, mas é o que eu prefiro acreditar. O que eles não sabem é que isso vem por medo do subjetivo. Nele é que mora o perigo. Prefiro sempre entender o que está acontecendo, para poder controlar a situação. Me manter a frente dela, não deixar aberto a surpresa, ao não saber.

Mas pior que o não saber, é a confirmação do erro. É o preço que se paga pela objetividade, ou a coisa vai, ou não vai. E as vezes ela acaba não indo. E nessas vezes, é gerada uma incontrolável frustração.

Tem alguns anos. Minha família estava em casa, casa cheia, como eu gosto. Ou costumo gostar. Nesse dia, meu primo estava recebendo toda a atenção da casa. Repleto de medalhas acadêmicas, esbanjando boas notas, com sucesso entre as garotas. E eu seguia o sem noção de sempre.

Fomos jogar futebol, como normalmente, mas aquele dia, era diferente. Era minha chance de estar acima em alguma coisa. Senti algo me consumindo. Precisava vencer. Em algum aspecto. Mas mesmo correndo muito, tentando de tudo, o meu máximo não era suficiente. Corri até em casa, e me tranquei no quarto, com uma raiva que nem eu achava que entendia. Mas eu entendia. Derrotado em todos os meus infalíveis critérios de objetividade. Todos. A sombra dele, minha sombra tomou conta. E mostrou que já estava com amplo território dentro de mim.

O tempo passou dentro do quarto. A vida precisava ser seguida, e a sombra precisava entender seu lugar. E ela entendeu. Se escondeu ali, mas não saiu. E eu sei que ela não saiu, segue aqui até hoje, e eu sinto ela aqui, como parte de mim. Vesti minha carinha tranquila e saí daquele quarto, saí para a vida, com a frustração e o rancor das falhas todas arquivadas, uma a uma, que são constantemente revisadas, e permanecem ali. Mas tratei todo mundo normalmente naquele dia, e nos outros. Não podem saber.

Na minha última crônica, acho que paguei demais de bom moço. Me considero bem intencionado, mas longe de ser inteiramente bonzinho. E a cada deslize, a cada falha, a cada pequeno erro, a coleção de derrotas alimenta a sombra, que vai aumentando seu espaço. Até que um dia eu me torne só ela. Só um acúmulo de frustrações e negatividade que eu não aprendi a lidar. 

Mas esse não foi o Jorge M. que vocês conheceram, é o que pode vir a ser. E com esse pseudônimo, fui o mais verdadeiro que poderia ser. Consegui falar sobre mim de uma forma que nunca havia conseguido antes, até porque, ao mesmo tempo que escrevo para todos, não escrevo para ninguém. Com essa matéria, aprendi com uma amiga que por trás de todo esse universo de nomes falsos, existe uma pessoa muito real. Muitas pessoas reais. E espero que a minha pessoa, junto ao meu personagem, tenha feito alguém refletir, se interessar, ou se divertir lendo. As crônicas se encerram por aqui, mas eu continuo, com alguns de vocês ao lado, eu espero. 

Esse foi Jorge M., o melhor e o pior que ele podia ser. O acelerado e o lento. O bom e o ruim. O procrastinador e o compromissado. O racional e o emocional. Aquele. É, ele mesmo.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Cartas que nunca chegam

O choro denso de uma mãe ecoa ao fundo da sala. As grades são tingidas pelo vento gélido das manhãs norte-americanas. O cinza predominante reluz nos olhos das crianças – que tão cedo se tornam as mães

 
 
 
Só na pele do cachorro

Renata e Juliana andam pelo centro da cidade. Viram esquinas, entram em lojinhas, batem perna, rodam por aí, tomam um cafézinho e continuam a andar. As calçadas cheias de pessoas fazendo o mesmo. As r

 
 
 
Apenas os pés

Lembro-me de abrir o jornal um dia e me deparar com a notícia de um homem que morreu em uma padaria. Foi negada a ajuda que poderia salvar sua vida. Nenhuma das pessoas presentes no estabelecimento li

 
 
 

9 comentários


bernardo soares
bernardo soares
04 de jul. de 2025

Boa crônica!

Curtir

Maria Brunari
04 de jul. de 2025

Jorge, sua escrita me atravessou. Há algo de profundamente honesto em reconhecer a sombra que a gente carrega — e mais ainda em expor isso com tamanha sensibilidade. Obrigada por compartilhar esse lugar interno com tanta coragem.

Editado
Curtir

Sêneca
Sêneca
04 de jul. de 2025

me identifico com esse medo do que nos não controlamos, fico feliz de ter começado a acompanhar seus textos, são maravilhosos e muito bem feitos


ótimo texto

Curtir

Peter Parker
29 de jun. de 2025

Oi, Jorge. Você é um escritor incrível e me parece ser uma pessoa fantástica! Gostei muito de como você retrata sua sombra, de como você mostra como ela se encaixa na sua visão das coisas, como objetivas muitas vezes.


Foi uma honra imensa ler suas crônicas, e também foi um prazer imensurável te conhecer através desses lindos textos!


Aqui, deixo meu pseudônimo de lado e espero conhecê-lo fora deste mistério também! Te desejo o melhor, meu amigo. 🕷️

Curtir

Raven
Raven
28 de jun. de 2025

Parabéns pelas crônicas. Achei muito legal você escrever como se fosse um texto de retratação. Crônica muito bem escrita, a autocrítica e a dualidade foram espetaculares.

Curtir

©2024 por Ufficina de Leitura e Produção Textual 

bottom of page