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Desculpa

  • Priscila Bandeira
  • há 3 dias
  • 2 min de leitura

Ao final do corredor das salas do terceiro ano ficava o meu armário.

 

O caminho até ele era sempre feito por apenas um par de pernas. A minha única companhia era a música que escapava dos fones. Cada vez que eu cruzava um novo grupo, aumentava o volume, e o celular me alertava sobre possíveis danos aos meus tímpanos.

 

Meus olhos não acompanhavam a movimentação. Não até que eu alcançasse a segurança do meu armário.

 

Ao guardar os livros, o armário ao meu lado foi aberto. Os adesivos espalhados pela porta me encararam. Fernanda eratão descolada. Até o armário dela carregava personalidade.

 

O corredor não estava lotado. Isso não era incomum para o horário, mas ainda assim eu sentia como se estivesse ocupando mais espaço do que precisava.

 

Pelo menos, enquanto a música estivesse alta o suficiente para me machucar, as risadas não conseguiriam.

 

Desviei o olhar dos cabelos sedosos e esvoaçantes, presos em penteados elaborados como se não fosse sete da manhã. Minhas mãos procuraram o óleo guardado em meu armário. Se eu tivesse tomado banho mais cedo ontem, meu cabelo teria secado direito.

 

Eu alisei a blusa amarrotada do meu uniforme. Meu celular pesava no bolso traseiro da minha calça jeans. Por instinto, abri a câmera assim que o peguei. Atrás de mim, pelo reflexo do celular, o braço de Daniel ao redor dos pequenos ombros de Elena me deixou enjoada. Eles encaixavam e ela pertencia ali. Meus ombros eram largos demais para receberem o braço de Daniel.

 

Guardei o celular antes que a bile me subisse a garganta. Os meus olhos piscavam forte em uma tentativa de conter as lágrimas. O rímel que eu passei antes de sair não podia borrar.

 

Só me virei quando me senti pronta para sobreviver o dia. E então, Elena, no meio de um bocejo, me viu. Sua mão levantou, acenou, me reconheceu. Ela sorriu. E sorrindo de volta, eu sabia que o dia estava perdido. Por mais que tentasse, ela sempre existiria com naturalidade no espaço em que eu pedia desculpas por atravessar.

 

— Priscila Bandeira

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