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Dias Solitários

  • Foto do escritor: Isabela Pelluso
    Isabela Pelluso
  • 11 de abr. de 2025
  • 2 min de leitura

Crônica por: Peter Parker


Desde pequeno, a ausência se faz presente na minha vida. Porém, aquela ausência mais machuca — a de um pai que nunca esteve verdadeiramente aqui. Posso me lembrar de fins de semana breves, de mês em mês, de mensagens rápidas de “boa noite” ou “bom dia”, até mesmo de perguntas breves sobre a vida. A sensação que sempre pairou era uma só: ele não estava ali.


Tornou-se comum que, em festas na escola, a ausência do meu pai fosse contemplada com uma justificativa que se tornou clássica — “o carro deu problema”, “é muito longe para ir de ônibus”, “sem dinheiro pra ir”. No fundo, e enquanto eu crescia, pude perceber o óbvio: sempre foram só desculpas rasas. O que o separava de mim não eram esses motivos, mas certamente o desinteresse, a indiferença fria como das clássicas mensagens de “Boa noite!”. Para ele, crescer assim era como chutar a bola contra a parede — solitário.


Com o passar dos anos, a vida adulta se fez presente e a infância amarga se afastou. Eu achava que já havia superado, que não restavam mais cacos para colar. Mas bastava ver algo bonito, memorável ou tocante relacionado à paternidade para que aquele buraco se abrisse novamente. Já foi raiva. Mas agora era uma mistura amarga de saudade do que nunca tive, tristeza, um pouco de raiva e culpa — culpa essa que, aos pouquinhos, foi se esvaindo com a certeza de que, nessa história, sou a vítima.


Hoje, um pouco mais crescido, ser pai se tornou um dos meus maiores sonhos — ser o pai que me faltou. Conhecendo a dor da ausência, a minha presença é o único cenário que posso imaginar. Dividir os momentos em que eu queria que meu pai estivesse, como jogar bola. Entendo que amar um filho com todo o amor que faltou a mim é uma forma de resistir — e, além disso, um modo de reinventar um trauma.


 
 
 

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6 comentários


Matt Murdock
27 de abr. de 2025

Excelente texto, bem amarrado e com uma conclusão que realmente pode resignificar esse trauma. Parabéns!

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nástienka
nástienka
11 de abr. de 2025

Texto muito bem escrito e tocante!! Ansiosa para seus próximos textos, Peter.

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Izabel Dos Prazeres
Izabel Dos Prazeres
11 de abr. de 2025

Você é um escritor, Peter. Pena de quem escolhe não te ler.

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Tangerina
11 de abr. de 2025

Lindo texto! Achei o parágrafo de conclusão de uma poeticidade sem tamanho. Lindo mesmo <3

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Jorge M
Jorge M
11 de abr. de 2025

Grande comentarista e grande escritor também, texto muito bem produzido e bem cuidado. Espero que, tal qual o personagem que te dá nome, você consiga superar esse trauma tão pesado, e um dia, consiga ser esse pai presente e afetuoso que pretende.

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