top of page

Dilema

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 30 de mai. de 2025
  • 2 min de leitura

Crônica por: Florbela


O arquétipo do cuidador sempre me chamou atenção, embora eu não me considere tão bondosa ou caridosa quanto ele sugere. Ainda assim, cuido dos meus — aqueles que considero família. A importância que dou a eles não tem medida. Meu cuidado é silencioso, muitas vezes mais mental do que prático. Penso neles, me preocupo, crio planos, mesmo que nem sempre se transformem em ações visíveis.


Nos últimos tempos, no entanto, esse lado cuidador tem se desgastado um pouco. Não que eu espere reconhecimento, mas quando gestos de carinho passam despercebidos ou são recebidos com cobrança, uma porta em mim se fecha. A falta de reconhecimento, mesmo que sutil, transforma presença em peso. As pessoas parecem notar mais na ausência do que na constância.


Com isso, acabo distribuindo indiferença com facilidade. As coisas perdem a graça rápido. Admito: posso ser um pouco fria, talvez prática demais para os padrões de afeto convencionais. Mas isso é o jeito que encontrei de continuar amando sem me abater tanto.


Enquanto isso, o arquétipo do explorador também me chama. Vivo em busca de novos caminhos, novas histórias. Talvez por isso ame tanto a leitura: é meu jeito de viajar, escapar da realidade e experimentar outros mundos. Às vezes penso que, se pudesse, não pararia em lugar nenhum. Cada canto do mundo parece esconder algo mágico. As línguas, as comidas, as pessoas... são tantas possibilidades.


E aí surge o dilema: sou alguém que, por amor aos meus, não se imagina partindo. Mas quando olho para dentro, sei que partir talvez fosse exatamente o que me faria feliz. Refletindo sobre esses dois arquétipos, percebi que partir não é necessariamente abandonar. E cuidar não depende da resposta do outro, mas da sinceridade do ato.


Sou feita de muitas faces — mas, nesta crônica, escolhi olhar para essa dualidade entre cuidar e ir embora. E, de certa forma, é reconfortante perceber que há paz em deixar certas coisas irem.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Cartas que nunca chegam

O choro denso de uma mãe ecoa ao fundo da sala. As grades são tingidas pelo vento gélido das manhãs norte-americanas. O cinza predominante reluz nos olhos das crianças – que tão cedo se tornam as mães

 
 
 
Só na pele do cachorro

Renata e Juliana andam pelo centro da cidade. Viram esquinas, entram em lojinhas, batem perna, rodam por aí, tomam um cafézinho e continuam a andar. As calçadas cheias de pessoas fazendo o mesmo. As r

 
 
 
Apenas os pés

Lembro-me de abrir o jornal um dia e me deparar com a notícia de um homem que morreu em uma padaria. Foi negada a ajuda que poderia salvar sua vida. Nenhuma das pessoas presentes no estabelecimento li

 
 
 

3 comentários


Maru Serano
Maru Serano
29 de jun. de 2025

Demorei pra ler esse texto, mas certamente valeu a pena. A sutiliza da sua escrita me faz querer ficar e ouvir um pouco mais da sua reflexão. Parabéns.

Curtir

Botânico
Botânico
30 de mai. de 2025

Flor, que emoção e identificação ao ler seu texto, sou um cuidador também e acho que você conseguiu descrever tão bem uma de minhas facetas.

SIMPLESMENTE INCRIVEL !!!🪻

Curtir

Peter Parker
30 de mai. de 2025

Flor, que texto lindo. Consegui me identificar bastante com você, um pouco no cuidador mas, principalmente, no explorador. Acho que concordamos, que o mundo parece muito agitado pra ficar parado no mesmo lugar.


Achei a crônica muito fluida e gostosa de ler! 🕷️

Curtir

©2024 por Ufficina de Leitura e Produção Textual 

bottom of page