Espelho
- gabriel gonçalves
- 9 de mai. de 2025
- 2 min de leitura
Crônica por: Florbela
Às vezes, me sinto como um espelho. Como se minha existência servisse apenas para refletir as vivências dos outros, absorver suas dores, aprender com seus erros, antecipar tropeços que nem são meus. Fiquei tanto tempo refletindo o mundo dos outros que hoje me pergunto: onde estão as minhas experiências?
Minha maior experiência, ironicamente, também depende da vivência do outro. Desde que me lembro, suporto a carga emocional de alguém que amo com uma força tão intensa quanto constante. Não digo quem é — talvez por proteção, talvez por discrição. Mas essa pessoa, que carregaria o mundo por mim, também decidiu compartilhar suas tempestades comigo. E eu acabava me afundando tanto no caos, que os limites do que era dela se confundiam em mim.
Com o tempo, ganhei um autocontrole que jamais imaginei possuir. Aprendi a ser abrigo, mesmo quando a minha própria estrutura tremia. E eu só queria que a chuva parasse — não sobre mim, mas sobre você. Só queria que o seu mundo tivesse um pouco de sol, de calma, de paz.
Pelo visto, minha maior experiência é a emocional — porque vivi a sua história do quase. Várias vezes estive frente a frente com a quase-perda. Não da minha vida, mas da sua. E, curiosamente, era sempre nos momentos em que eu surgia sem avisar, movida por uma vontade súbita de te ver, de estar com você. Eu não sabia, mas talvez fosse o destino me guiando para impedir um fim para o qual não estávamos prontas.
Eu te amo. Aprendo muito com você. Mas, estou cansada. Cansada dos “quases”. Quero experiências que me tragam luz, que aqueçam a alma, que me façam ser — alguém além do espelho.
E, quem sabe um dia, eu finalmente deixe de refletir.

Comentários