Falsa alegria: por um olhar de uma filha.
- Isabela Pelluso
- 11 de abr. de 2025
- 2 min de leitura
Crônica por: Inês Brasil
Uma filha, uma criança no meio de adultos. Do início ela estava alheia de
tudo. O desconhecimento não era sua culpa, era uma tentativa falha dos
outros de protegê-la. Protegê-la de algo mais terrível que um monstro
embaixo da cama, ou até mesmo dos problemas da vida adulta. Estavam
tentando preservar o sorriso e a única pureza que ainda havia nela.
Escondê-la da verdade foi um erro, mal pensado e ignorante. Assim foi como
tudo começou.
Aos berros ela descobriu a verdade, mas mesmo assim continuou sendo o
pontinho de luz da casa, a única pessoa a sorrir e engolir tudo para dentro de
si. Foram tempos difíceis e solitários. Para ela, a adolescência passava sem
ver, trancada em casa com uma meia dúzia de pessoas no celular. Não ia à
escola, ninguém na casa podia ficar doente. Tudo foi piorando, idas ao
hospital duravam cada vez mais tempo. Não perguntava de notícias para não
se decepcionar mais. Também aos gritos foi questionada: "Você não quer
saber de nada? Isso não importa para você?"
.
Tudo era demasiado importante, mas ela sabia que não podia fazer nada. Em
inúmeras orações ela pedia ajuda, pedia que trocassem o lugar dela com a
pessoa que mais amava. Estava disposta a morrer pela vida. Até que viu o
resultado contrário de seus intensos pedidos às divindades, deixou de
acreditar em tudo que era milagroso. Seu aniversário de 15 anos se
aproximava, a doença também piorava na mesma medida que o tempo
passava. Até que o dia chegou, uma foto foi tirada, aniversariante de frente e
os convidados de costas, mas só ela sabia o rosto que sua mãe tinha ao
olhar para ela. Um olhar de tristeza de quem sabe que vai partir, um olhar de
arrependimento e medo. Medo de deixar uma criança sozinha no mundo.
O mundo sem uma mãe é cruel, é solitário e vazio. É um espaço que nunca
vai ser preenchido. Ela partiu uma semana depois da festa, como uma
despedida, mas a sua pequena filha sempre pediu para que voltasse em seus
olhos para ver o mundo. Hoje ela leva a mãe por onde vai, olha para o céu a
cada conquista, mesmo acreditando que nada disso existe. É necessária uma
esperança para se manter funcionando. É necessário parecer bem e alegre
para não se autodestruir.
O mundo aqui embaixo é cruel e desesperador. Viver sem sua luz guia é
como se embrenhar numa floresta à noite. Cada dia me torno mais parecida
com minha mãe e tento também estar mais próxima dela em coisas do dia a
dia. O dia da morte foi nublado e desesperador. Nos dias seguintes eu
tentava engolir mais a tristeza porque continuava a ser o ponto de luz da família.

Cara Inês, acredito que você tenha escutado muitas vezes o "sinto muito", ou o "meus pêsames". Ler e reler sua crônica faz com que eu sinta a dor avassaladora que a perda traz, assim como me faz pensar que reviver a dor não é facil. Espero que você possa sentir meu abraço e que você saiba que estou aqui!
De sua amiga,
-Capitu 📕
Sinto muito pela perda, ninguém no mundo merece passar por isso. Certamente ela fica muito feliz e grata de te ver caminhando com a luz dela e com a sua luz.
Ninguém no mundo deveria ter que experienciar uma dor assim. Obrigada por compartilhar isso na forma de um texto tão lindo e sensível como esse.
Que crônica incrível. Não consigo imaginar como é uma vida sem a mãe, mas tenho certeza que fácil não é. Não consigo imaginar o quanto te doeu escrever sobre e nem como lidar com isso tudo. Certamente, ela sorri do céu — mesmo que você não acredite — ao ver a filha incrível que você é, e como carrega o legado dela até hoje. 🕷️
Sua escrita é maravilhosa!
Muito tocante, impossível não se emocionar. O luto e a saudade nunca são fáceis, espero que você esteja bem ❤️