Febre
- gabriel gonçalves
- 2 de mai. de 2025
- 2 min de leitura
Crônica por Fernanda young.
“Tenho vocação para o excesso. Sofro por aquilo que quero, e mais ainda quando tenho.”
— Fernanda Young
Teve uma vez — teve ele. O tipo que chega devagar e, quando você vê, já está em tudo. No jeito de pensar, nas músicas que ele gosta, no que ele come no café da manhã. Eu fui fundo. Aprendi ele com cuidado, com vontade. Passei a ouvir o que ele ouvia, ver o mundo com o filtro dele. Não por imitação, mas por fome. Eu queria saber o que ele sentia quando olhava o céu, que tipo de dor ele escondia nos ombros.
E então tive. Tive ele inteiro. Os detalhes, os vícios de linguagem, os toques mais distraídos. Só que, com o tempo, fui me irritando com as mesmas coisas que antes me encantavam. As músicas, que pareciam cheias de significado, foram perdendo o gosto. O jeito dele, antes tão único, passou a pesar. Ele não mudou — eu que fui deixando de caber naquele encantamento.
Me afastei. Não por raiva, nem por mágoa. Só por cansaço mesmo. E deixei ele ir, como se isso fosse fácil.
A parte engraçada é essa: depois que deixei ele ir, o desejo ficou. Vagando, feito cachorro que volta pra casa antiga. Ver ele com outras pessoas me dava uma gastura sórdida. Não era ciúme — era vaidade. Aquela sensação mesquinha de que alguém está usando o brinquedo que você cansou de brincar. E mesmo assim, a febre voltava. A vontade de mandar mensagem, de perguntar qualquer coisa besta, só pra ouvir a voz. Só pra reanimar o jogo.
Mas eu não fui. Porque, no fundo — e esse fundo é escuro e honesto — eu não queria ele. Eu queria querer ele. Eu sou boa nisso: acender o fósforo, nunca usar. O que me move é o espaço entre. O quase. O arrepio antes do toque.
Realizar é o fim da festa. E eu sempre preferi a promessa, o gosto da antecipação.

"Eu tenho febre, eu sei! É um fogo leve que eu peguei do mar, ou de amar. Não sei. Mas deve ser da idade."
Essa é "Charme do Mundo", da Marina Lima. Me veio logo à cabeça quando li o título, e acho que, de certa forma, se relaciona com o texto.
Você é uma grande escritora, Fernanda Young! Assim como a sua inspiração homônima.
Sério, a dor de cotovelo deveria ser mais estudada por nós como sociedade. Que sentimento ingrato temos! Que forma maravilhosa de expressar isso, Fernanda! A comparação com o brinquedo velho é excepcional, é certeira, é impressionante, é "Lispectoriana". Você é incrível, querida.
Identifiquei-me com cada palavra do seu texto. Particularmente, acabei aceitando que a conquista é sempre mais saborosa do que a vitória. Texto impecável!
Sua escrita é um absurdo de tão boa! Um texto forte, cheio de camadas. Você descreve com maestria e honestidade o encantamento, afastamento e vaidade. Fico ansiosamente no aguardo dos próximos.
Fernanda, você é uma das grandes. A conquista, a descoberta, o caminho, a estrada, muitas vezes são mais interessantes que o pós do destino. E, nisso me identifiquei.
Leitura incrível, do tipo que terminamos na ânsia por mais. 🕷️