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Fissura

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 20 de jun. de 2025
  • 1 min de leitura

Crônica por: Nástienka


Sorrateiramente, minha sombra se disfarça de admiração. 


A simplicidade do seu domínio é minha espiral mais antiga. Está comigo nas observações mais singelas, seguidas por um comentário gentil, uma curiosidade sincera. 


Mas há sempre uma pontada ácida ali, que logo se redobra em autodepreciação.


Primeiro, vem o pedestal. A obsessão calma. O desejo de saber tudo, compreender cada grão da poeira angelical que formou esse astro.


O cabelo dela recai como seda, não acha? 


Sim, por favor, me conte sobre seus jogos favoritos.


Sua risada, personalidade, que tipo de droga você colocou nela?


O jeito que todo mundo te ama, que tipo de feitiço é esse?


E então, vem a birra. A urgência. O medo de nunca chegar a ser minimamente parecida com elas. Sou possuída por um desgosto muito profundo sobre tudo aquilo que define quem sou, e ainda mais, sinto como se a culpa disso fosse externa. 


Tento ser racional, me manter feliz com o que tenho e apenas admirar as conquistas alheias. Realmente tento, de novo e de novo. Mas por fim, apenas engulo o sentimento e finjo que não me importo, na esperança de que isso se torne realidade.

 

Ainda assim, continuo intoxicada. Me envergonho desse sentimento e tento deixá-lo para trás, mas ainda não cheguei nesse ponto. Por enquanto, esse é o fantasma que assombra meus dias.



 
 
 

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5 comentários


Maru Serano
Maru Serano
30 de jun. de 2025

A sua excelente escrita faz com que um assunto tão sensível e difícil como esse consiga ser transmitido de uma maneira leve, intrigante. Mesmo com poucas palavras, você externalizou bem o que sente. Gostei da crônica.

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kenai
kenai
26 de jun. de 2025

É muito fácil de se identificar com o seu texto, você escreve de forma leve e clara algo que tenho certeza de que todos nós passamos e que as leis morais nos fazem ter vergonha de algo tão comum, ótimo texto!!!

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Izabel Dos Prazeres
Izabel Dos Prazeres
25 de jun. de 2025

A sinceridade é uma das artes mais difícies de se dominar e nessa crônica você fez isso com maestria. Todos podemos nos identificar com sua sombra. Parabéns pelo lindo texto!

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Jorge M
Jorge M
25 de jun. de 2025

A sombra, muitas vezes, é aquilo que nos envergonhamos, mas é parte de quem somos. Parabéns pela coragem de contá-la e discorrer tão bem sobre esse sentimento negativo mas presente, que te aflige e te persegue. Parabéns pelo texto.

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Peter Parker
23 de jun. de 2025

Nástienka, que crônica pura. Verdadeira do início ao fim, fico feliz que você tenha exposto esta sua sombra, sem vergonha de admitir um "defeito" que todos nós carregamos um pouco. No quesito textual, você foi impecável mais uma vez. O texto flui tão puro, uma leitura tão leve, tão gostosa de ler. Te admiro! 🕷️

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