Hereditariedade
- Isabela Pelluso
- 11 de abr. de 2025
- 3 min de leitura
Crônica por: Tangerina
Anos oitenta do século XX. Jantar de domingo na casa Siqueira. Dona Siqueira preparou tudo com o maior carinho e dedicação maternal. Todos os cinco filhos Siqueira estão à mesa, com os pratos cheios e já frios, esperando que ele chegue em casa. É óbvio que ninguém começaria a refeição sem a presença do Capitão. Do Ditador. Do Homem da Casa. Do General. Do "Pai" e "Marido" Senhor Siqueira. Ele chega com os pés na porta, e a embriaguez na fala e na mente. Não era, na verdade, extraordinário que isso acontecesse. Siqueira passava mais tempo com um copo na mão do que com um filho no colo, e mais tempo olhando o futebol na TV do bar do que nos olhos da própria mulher. Não era raro que os jantares de domingo naquela casa tivessem cheiro de cerveja e som de gritos.
Mas, naquele dia, tudo estava mais acentuado. Nunca me contaram exatamente o motivo de tudo ter acontecido. Talvez por omissão, talvez por desconhecimento, ou talvez porque não houvesse explicação alguma. Algo apenas fugiu das regras e vontades do grande General. E, naquela noite de domingo, o jantar da minha avó foi parar na parede. O som do prato espatifando-se no azulejo se misturou aos gritos que aquela casa já estava acostumada a ouvir. E a comida escorreu, assim como as lágrimas escorreram no rosto da única filha Siqueira: a minha mãe. Naquela noite, ela jurou acabar com o mal do nome. Prometeu dar à filha o sobrenome de árvore, que veio da matriarca. Jurou, porém, não ser igual à sua mãe. Fazer escolhas diferentes. Seguir outros caminhos. Mas nenhum caminho a salvou da repetição.
Anos vinte do século XXI. Almoço de domingo na casa da Árvore. Minha mãe preparou tudo com o maior carinho e dedicação maternal. Nessa casa, há um novo Siqueira. Agora, Coelho, o homem escolhido por ela. Mas dessa vez, ninguém precisa esperar que ele chegue. Ele já está lá, como um abutre vigilante, observando cada passo dos habitantes da casa da Árvore. Eu sou um deles. O Abutre-Coelho guarda seus remédios sobre a geladeira e vaga como um holograma pelos corredores estreitos. A violência se repete. Agora não física, mas psicológica. E apesar das diferenças, a semelhança é assustadora: os mesmos gritos, o mesmo choro, a mesma prisão. E a mesma esperança de um futuro melhor para os que vêm depois. Minha mãe chora. Diz que reza todas as noites para que eu, fruto da Árvore, quebre o ciclo. Diz que serei tudo que ela não foi. Que, em mim, persiste sua felicidade. E eu prometo a mim mesma não ser igual à minha mãe. Fazer escolhas diferentes. Seguir outros caminhos. Mas... existirá um caminho que me salve da repetição?
Essa história ainda está sendo escrita. Ela é minha, mas também é de tantas outras mulheres brasileiras, de tempos que ultrapassam os livros de história. Todas lutamos, todos os dias, para honrar e orgulhar aquelas que vieram antes. Nos esforçamos para não repetir os mesmos erros. Mas há heranças. Hereditariedades. Nada se perde.
Quem pode garantir que, um dia, eu não encontre um novo Coelho? Um novo Siqueira? E que a minha futura filha não tenha que, um dia, prometer ser tão diferente de mim, para que possa sobreviver?
Esse é o medo que habita o fundo da minha consciência. E espero, com tudo que sou, que eu possa vencer a repetição.

Que texto polido e bem escrito! Estava pronta para comentar sobre algum desvio do gênero textual, por conta do começo literário, mas quando no final você entra em uma reflexão mais direta, tudo passa a fazer sentido e fica lindo. (Acredito que reconhecer a existência de um ciclo já é o primeiro passo para quebrá-lo, você vai vencer!)
genial. texto lindo demais.
Você foi incrível, me transmitiu tantos sentimentos. Parabéns!
Esse medo de reproduzir os atos, de experienciar ações e sentimentos que sabemos o quão malignos são, corrói por dentro. Espero que você nunca passe por isso, saiba que as vivências de seus familiares não designam a sua. Ótimo texto!
Gênial, belo texto!