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I’m an echo in your shadow

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 23 de mai. de 2025
  • 2 min de leitura

Crônica por: Nástienka


“ — Explique-me: por que não havemos todos de ser como irmãos uns para os outros? Por que motivo, quando nos encontramos diante de outra pessoa, mesmo que ela seja a melhor do mundo, havemos sempre de esconder e de calar qualquer coisa? Por que não havemos nós todos de dizer com absoluta sinceridade aquilo que trazemos no coração, quando sabemos muito bem que as nossas palavras não seriam em vão? Parecemos todos mais frios e taciturnos do que somos na verdade; dir-se-ia que as pessoas têm medo de se comprometerem expondo com franqueza os seus sentimentos. 

— Ah, Nástienka! Você tem muita razão."

[Trecho retirado do livro "Noites brancas", de Fiodor Dostoiévski]


Existem pessoas que devoram os sonhos dos outros. E existem aquelas que os expelem: vomitam tudo, sem pudor, sem vergonha. O suicídio social é certeiro, inevitável, inegociável. Mas isso pouco importa. O que importa é a verdade. A voz se trata apenas de uma tradutora dos dizeres do peito.


Essas pessoas queimam de forma intensa e lenta, levando todos em seu entorno para o fogo.


Nástienka é assim.

O Sonhador teve sua presença por quatro noites. Quatro. E isso bastou para preencher uma vida inteira. Ela reacendeu o sentimento ingênuo de desejar, aquele que ele havia trancado. Nástienka é o eco de uma sombra que ele sempre tentou ignorar. E, antes que perceba, ele deseja com ela. Sonha com ela.


Mas Nástienka queima. Ela é pura sensação.

É pele sobre pele, suor que escorre, presença que exige exclusividade. Palavras dizem muito; ações, talvez mais ainda. Mas a vida real? O toque? Essa é a resposta. Ela quer o concreto. Aspira o palpável. 


O que te impede de dizer a sua verdade se não o medo de que ela não seja real?


Nástienka é, para mim, o agridoce. O excesso de sentimento que repulsa e atrai. De joelhos, com o sorriso mais covarde já visto, sussurra: “me ame, por favor”, apenas para desaparecer pela manhã. E não era mentira. Era uma verdade do momento, sem qualquer compromisso com a eternidade.


Ela é um lembrete do sentimento: mutável, confuso e livre de obrigações. Mas que deve ser sempre verdadeiro, mesmo que dure só um instante. 

 
 
 

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3 comentários


Maru Serano
Maru Serano
01 de jul. de 2025

Caramba, muita qualidade no seu texto. Bom uso das estratégias semânticas, inclusive a 3ª pessoa.

Curtir

Vinícius Souza
25 de mai. de 2025

Culto, descritivo, mas sem pretensão de ser

didático.

Nátienska é sentimento, é Clarice,Gal é Dostoiévski.

Acima de tudo é próxima —em alguma medida— pq entendi cada aspecto de Jung oculto em suas letras.

Tenho nem dignidade pra te parabenizar!

Genial!


Editado
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Peter Parker
25 de mai. de 2025

Nástienka, que crônica incrível. Inclusive, confesso que por ignorância minha, não sabia que seu nome havia sido retirado de Dostoiévski. Lerei ele, e começarei por "Noites Brancas", graças a você.


Cheia de recursos linguísticos, oratórios e bibliográficos. O jeito como você define os sentimentos, sem compromisso com a eternidade, mas compromissado apenas com a verdade — mesmo que momentânea — é incrível. 🕷️

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