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Identidade

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 2 de mai. de 2025
  • 3 min de leitura

Crônica por: Vinícius Souza


De todos — sejam eles profanos, sagrados, amorosos, profissionais —.não há maior desejo agora e sempre que o de encontrar minha identidade.


Profundo, tedioso, melancólico, mas nunca consigo parar de pensar nisso.


Além do: “quem sou eu” clássico, para que sou eu?


Sou um produto do que sempre me cercou?


Sirvo à minha consciência ou à coletiva?

Às vezes, nem sei se elas se opõem.


Sou realmente uma pessoa com personalidade firmada, certa, coesa, com princípios e moralidades indiscutíveis ou uma junção imperceptível de fragmentos de outros?


Herdei genes das piores subjetividades do meu pai, como minha mãe sempre diz?

Sou o rascunho não finalizado dos planos da minha família?

É parte de mim, meu avô, pelo que me ensinou?

Não sou, e se sou, fujo de ser uma extensão deles. Afinal, como disse a digníssima Glória Maria, nenhum deles vai compartilhar o meu caixão. Seria muito esforço viver sendo tantos outros para, no final, nenhum deles deitar no meu caixão.


Dentre todas as respostas sociológicas, filosóficas e teológicas, parece que estou sempre como um cachorro mordendo seu próprio rabo, num looping. Se me perguntassem agora o sentido da vida, eu diria: o da minha é a busca incessante pela utopia do meu eu.


Porque falando a verdade, é sério mesmo que nos conhecemos tão bem?


Eu tenho o costume de fingir para mim mesmo que sei meus limites, meus princípios e paixões, mas quando não os sigo, deixo de ser eu?


Pela religião, minha identidade seria não baseada no meu eu, mas no caráter divino que me moldaria a partir dos atos de renunciar às minhas vontades, que não são minhas, mas da carne e osso pelos quais a minha alma está presa. Isso faria de mim espírito somente? Se sim, o que sou eu? Dado que sou só espírito, um prisioneiro?


Na sociologia, o conceito de fato social me rendeu diversas crises existenciais, pois sou fruto das imposições da sociedade que me rege, e, caso seja isso mesmo, qual o melhor caminho? Apenas aceitar?


Assistindo a um programa daqueles de roda de conversa, interessantíssimo por sinal, estava ali uma professora de filosofia. Em certo momento, quando questionada sobre o que mais espantaria Platão sobre as pessoas atualmente, ela responde quase que sem pensar: que seria a falta de identidade. O espanto se daria pelo grande número de pessoas respondendo quem são sob a luz de suas profissões ou de onde moram. Caso mudem elas de carreira, deixam de ser quem são? Se mudarem de sua região habitual, levam consigo sua essência ou a deixam para trás?


Escrevendo aqui, consolido ainda mais minha dúvida e, a partir dela, anseio ainda mais por saber: “como sou?”, “de que sou formado?”, “para que sou?”. O processo de autoconhecimento, para mim, vai além das muralhas da minha subjetividade. Ele é o patrocinador dos meus projetos. Ele é vital, porque sem ele me sinto perdido e, mais, controlado. Meu maior medo é ser massa de manobra, cativo das cosmovisões dos ao meu derredor. Por isso, em qualquer discussão, mesmo que trivial, gosto de ouvir sempre todas as facetas de opiniões sobre todo e qualquer assunto. Porque sinto que, quando entendo tudo, a síntese de todas elas é o mais próximo de uma verdade — e ali me vejo e me reconheço sem me conhecer.


Eu sou o que sou e desejo saber quem sou. Não tenho uma resposta concreta, e provavelmente nunca terei. Mas a jornada nunca cessa. Enquanto houver horizonte, enquanto houver vida, mais me aproximo da utopia do meu eu.

 
 
 

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6 comentários


kenai
kenai
06 de mai. de 2025

Eu amei! amei a citação da Glória Maria e fiquei o tempo todo pensando na música metamorfose do Raul Seixas pq acho que nunca somos/seremos um só, talvez por isso nunca ache a resposta. Em sua essência você certamente sempre foi o mesmo mas com o passar do tempo você certamente muda, e fique tranquilo pq quem é massa de manobra não tem medo de ser

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florbela
03 de mai. de 2025

Acho que uma das coisas mais corajosas que podemos fazer é procurar o nosso eu.

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Izabel Dos Prazeres
Izabel Dos Prazeres
03 de mai. de 2025

"Se conhecer de verdade, coragem! Que coragem!", canta um cantor brasileiro que amo, chamado Castello Branco. O primeiro passo para essa jornada intensa é aceitar esse desejo e você me parece ter feito isso magistralmente. Adoro sua escrita, você mistura reflexões e beleza com muita fluidez. Além de, fiel ao gênero, traz belíssimos elementos do mundo ao nosso redor. Parabéns, mais uma vez!

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Peter Parker
02 de mai. de 2025

O texto se encontra em si próprio em diversos momentos da leitura e acho isso grandioso, engrandece o texto e a leitura como um laço que foi amarrado firme. Tem pequenos e sutis desvios de ortografia, com alguns erros minuciosos de uma das mais temidas regras do português: o uso da vírgula. Não que eu tenha uma ortografia correta e perfeita, como todos aqui, também tenho que me lapidar. Leitura interessante, longa mas pouco cansativa — certamente, isso torna o texto tão bom. No início achei que o texto responderia às tantas perguntas que nos faz, mas, ao passar da leitura percebo que ele não sabe a resposta e nem nós. Deveríamos então, refletir juntos?🕷️

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Vinícius Souza
02 de mai. de 2025
Respondendo a

É uma honra tê-lo como crítico — tudo fica mais grandioso assim.

Minha maior inimiga atacou de novo: a vírgula, essa megera.

Vou tentar fazer as pazes com ela no que está por vir. Obrigado pelo toque!

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Odysseus
Odysseus
02 de mai. de 2025

Estar em busca de sua identidade é algo profundo, Vinícius. Estamos sempre a espreita da sombra do que, ou quem, somos e quando escurece sabemos que a sombra continua ali, mesmo sem a ver. Eu acredito que uma das graças da vida é justamente buscar incessantemente por nos aproximarmos de nós mesmos.

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