Incalculável, como canta Tim Bernardes
- gabriel gonçalves
- 23 de mai. de 2025
- 2 min de leitura
Crônica por: Izabel dos Prazeres (Ou Bel-prazer)
Gastei meus dois dias em um intenso exercício contemplativo, pensando, pensando e pensando no que poderia escrever. Examinei minhas crônicas passadas para achar algo que faltava ou que ainda não fora descoberto sobre Izabel. Percebi, quase que por acaso, que em toda minha pequena obra recém nascida, uma preocupação em comum paira entre as letras: falo demais sobre o que os outros pensam ou esperam de mim. E de fato, olho agora ciente disso e lembro de muitos momentos em que gastei tempo elaborando mentalmente formas de melhorar a percepção alheia sobre minha pessoa. Não que eu deixe de viver e experimentar, acho que já lhes mostrei o contrário. Mas nenhum passo meu é dado por impulso ou sem calcular as múltiplas possibilidades de dar errado ou de ser criticada. Pensar demais é meu karma. Em vidas passadas, provavelmente morri por algum ato imprudente e hoje minha alma vaga meu corpo me fazendo questionar tudo e todos.
Meu signo de água me fez intensa. Me definiria como uma obsessiva em certas situações. Porém, são incontáveis as vezes em que, em diferentes contextos, alguém disse invejar minha calma e serenidade. Levei tempo até entender que o mundo que eu carrego aqui dentro é bem maior que a fachada que ostento fora. Em “Incalculável”, Tim Bernardes diz que “a mente e o sentimento são uma combinação interessante de se ter” e eu não só concordo, como me utilizo dessa combinação complexa para enganar quem me rodeia.
Se me lembro bem, deparei-me com a noção de introspecção pela primeira vez no ensino médio. Uma professora de literatura (saudades, querida!) analisava a obra de Clarice, classificando-a dessa forma. Isso porque, segundo ela, acontecia muito mais coisa dentro de seus personagens do que externamente. A identificação foi instantânea. Eu nomeava ali uma característica conhecida, mas inexplorada até então por mim. Antes disso, eu dizia a todo mundo que eu era tímida, mas isso não dava conta de me contemplar por inteira. Minha personalidade não era expansiva, mas dentro de mim um universo crescia continuamente.
Me conhecer não me poupou das dificuldades de ser uma pessoa introvertida nesse mundo em que se destacam os que se expõe. Pensar demais piorava tudo: eu era minha vítima e meu algoz. Me martirizava quando não conseguia acessar determinado espaço, mas depois me confortava, dizendo a mim mesma que essa era eu e não dava pra mudar. Iriam me amar pelo que eu era, viria até mim o que fosse meu.
A descoberta transmutava-se aqui em desafio. Toda decisão a se tomar era, como canta Tim, uma tentativa de calcular o incalculável, de entregar a liderança da cabeça ao coração, de desligar a razão. Por sorte, nunca me faltou coragem. Peço perdão ao autor ou autora, (caso essa frase tenha uma autoria registrada de fato), mas como dizem os clichês de autoajuda: coragem não é a ausência do medo, mas sim a ousadia de enfrentá-lo. E enquanto meu cérebro borbulha minhas incapacidades e as chances de erros mil, dou o primeiro passo, confiando que o chão se cria por onde eu ando. Talvez eu não seja tão racional assim…

Amo a forma como essa persona se entrega nos textos. O seu talento é admirável.
A coragem em sua palavras, você é uma inspiração
Bel, você é uma escritora fantástica, eu mais que te admiro, te idolatro. A cada semana, suas crônicas que sempre estão perfeitas, parecem melhorar.
O recurso bibliográfico para citar uma de várias canções incríveis de Tim Bernades, é maravilhoso, o jeito como você encaixou ao longo do texto é incrível. Para mim, é uma honra ter uma escritora de tamanha genialidade na mesma sala que eu que tão pouco sei. Estou ansioso para a próxima, e ler um pouco mais sobre o que você pode nos proporcionar. 🕷️
Bel, você nos surpreende a cada semana. É um privilégio ter uma escritora como você na nossa turma. Te admiro, não só na escrita, mas também em toda essa coragem que carrega contigo.
Também sou introvertida e compartilho dessa introspecção com você, é perturbador a ansiedade nos controlando a todo momento e tal controle acaba nos sufocando ao nos expressarmos.
Texto maravilhoso, como sempre!
Achei que havíamos chegado em um nível tão íntimo de sua persona,mas esse texto é uma linda subversão.
O seu mundo é gigante e compartilha-lo mesmo que em uma pequena porção tem me moldado demais, admiro sua escrita, sua verdade e sua cosmovisão.
Caso ainda não tenha dado o presente ao mundo de escrever um livro, por favor faça, estarei na fila para vc assinar!