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Louva deusa, como canta Letrux

  • Foto do escritor: Isabela Pelluso
    Isabela Pelluso
  • 11 de abr. de 2025
  • 3 min de leitura

Crônica por: Izabel dos Prazeres (Ou Bel-Prazer)


Nos meus poucos anos de vida – porque sim, sou jovem –, já vivi tanta coisa no campo amoroso que ficou difícil escolher uma só história traumática para contar. Só nunca traí ninguém. E, mesmo que tivesse, não contaria a vocês — tenho uma imagem a zelar. Mas o fato é que optei por falar sobre como o rompimento do meu primeiro namoro foi o mais marcante (até então). Não foi um evento elaborado, com nuances e reviravoltas. Não envolveu violência, confusão, abusos, nem nada do tipo. Tinha outras histórias mais impactantes para contar, mas creio que todas as outras temáticas já foram trabalhadas à exaustão. Esse término foi tão sutil que me perguntei inúmeras vezes se deveria considerá-lo uma experiência de trauma. A julgar pelos efeitos que gerou em mim, concluí que sim. E aqui peço licença para omitir o gênero da pessoa em questão, em nome do mistério.

A pessoa era o partido que meus pais haviam pedido a Deus (literalmente). E, de fato, era praticamente um anjo vindo dos céus. Esse Anjo me amou com uma intensidade canceriana por um longo ano e oito meses. E eu o suportei, com esporádicos gestos românticos que mais serviam para demonstrar minha criatividade do que qualquer outra coisa. Mas, ainda assim, tinha profunda admiração e carinho por esse ser. Éramos, antes de tudo, amigos. Amigos de infância, o que fez confundir os sentimentos na juventude. No fim das contas, eu só não o amava da forma que ele merecia ou esperava — mas existia um inegável sentimento. Lembro que, pouco depois de completarmos um ano, havia decidido pôr fim naquela ilusão. Marquei uma conversa e fui me encontrar para acertar as contas. Na minha cabeça, a proximidade do fim estava clara para ambos, mas o Anjo chegou à reunião com os olhos brilhantes e um sorriso no rosto. Disse que me trazia uma resposta que eu já nem esperava mais: sua mãe finalmente havia permitido que viajasse no Carnaval comigo e com minha família. Já estava pensando nas roupas que levaria e nas fotos que tiraríamos. O balde de água fria congelou toda a minha coragem — eu não conseguiria cortar as asas do Anjo naquele dia.

Viajamos. O desgosto me corroía. Me envergonho, mas fui a pior companhia possível naqueles dias. Não era de propósito, era só como eu me sentia. Eu, que sempre me julguei arauto da “responsabilidade afetiva”, descobri que, dentro de todos nós — independente de gênero, orientação ou criação —, habita enjaulado um homem-hétero-tóxico, doido para se soltar e ser o pior parceiro possível quando quer terminar a relação, mas falta coragem. Digeri aquele luto por mais alguns meses, até que um mal se abateu sobre a humanidade: a pandemia de COVID nos fez ficar alguns dias distantes. Nem lembro da última vez que o vi antes daquele caos começar. Só sei que sugeri que tirássemos os supostos 15 dias para pensar na relação e, então, voltássemos a conversar. Por fim, deixei meu Anjo ir depois de uma videochamada repleta de lágrimas e raiva. Um momento tragicamente tosco — um sintoma daquele tempo estranho.


A princípio, lidei bem com o peso da solteirice aguda. Mas o tempo passou, e aquela culpa tornou-se uma dor inexplicável. Sonhei diversas noites com aquela cena. Sentia que era o maior monstro do mundo — um monstro malvado, devorador de tempo, juventude e sentimentos. Uma louva-a-deusque come a cabeça do seu amado logo após levá-lo ao ápice do prazer. Hoje, observo que eu estava me dando valor demais. Não era (e ainda não sou) o maior partido do mundo. O Anjo hoje ama outra pessoa — que deve ser infinitamente melhor do que eu. Mas, no fim da minha adolescência, vivenciar o peso de partir o coração de quem se gosta foi dilacerante. Me sentia culpado, acima de tudo, por ter feito da forma que fiz e por ter deixado chegar até aquele ponto. Por ter iludido um anjo. Por ter gasto seu tempo. Por tê-lo feito sofrer sem mais nem menos, sem um motivo justificável e justificado. Terminei porque sim. Até porque, como se diz pra alguém: “eu não me apaixonei como você”, da forma correta? Como se lida com o peso de partir um coração? Como aceitar sua vilania na vida de alguém sem querer se afastar do mundo para poupá-los de sua crueldade? Não sei bem a definição filosófica ou psicanalítica de trauma, mas o que eu chamo de trauma aqui se manifestou depois da reabertura do mundo: eu evitava amar alguém, com medo de amar de menos outra vez.

 
 
 

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6 comentários


Tangerina
11 de abr. de 2025

Tenho tanta coisa pra dizer sobre esse texto que acho que ultrapassaria o bom senso acadêmico. Vou me limitar a dizer somente "uau". Parabéns pela escrita!

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Izabel Dos Prazeres
Izabel Dos Prazeres
11 de abr. de 2025
Respondendo a

Gratidão imensa!

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Peter Parker
11 de abr. de 2025

Estamos falando de quem ocupa as cabeças. Crônica inacreditavelmente maravilhosa. As piadas com teor sarcástico e humorístico — para que possa nos prender ainda mais na crônica —, é de uma genialidade admirável. O desabafo nos faz refletir sobre como podemos ser mocinhos e vilões no nosso próprio filme. Incrível. 🕷️

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Izabel Dos Prazeres
Izabel Dos Prazeres
11 de abr. de 2025
Respondendo a

Muito obrigada por compartilhar sua leitura linda e pelos elogios. Fico muito feliz!

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Jorge M
Jorge M
11 de abr. de 2025

Texto muito bem escrito, muitos sentimentos bem demonstrados, ótimas referências, meus parabéns aí a quem o escreveu.

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Izabel Dos Prazeres
Izabel Dos Prazeres
11 de abr. de 2025
Respondendo a

Gratidão, querido!

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