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Maria

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 20 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

Crônica por: Maria Brunari


Eu estava sentada. Cansada, mas acostumada. O ônibus balançava como sempre, e meus olhos já sabiam seguir a paisagem sem ver. Era fim de tarde e eu me arrastava em direção à faculdade com o corpo mole e a mente distraída. Tudo parecia igual aos outros dias. Até que ela entrou. O estômago virou de leve, mas eu não desviei o olhar.


Ela estava em pé, uns passos à frente. A mulher que um dia se escondeu por trás da máscara da doçura. A que sorria como quem nunca faria mal a ninguém. Os cabelos, que um dia elogiei, agora estavam do jeito que eu sabia que ela detestava. Havia olheiras embaixo dos olhos. Seus ombros curvados. O olhar baixo. E algo em mim — algo que finjo não conhecer — se aquietou com prazer.


Durante muito tempo, fui a tola. A que compreende. A que estende a mão mesmo sangrando. A que acredita que todo mundo tem um motivo, uma dor secreta, uma falta que justifica a crueldade. E foi assim que me deixei ferir. Por ela. Que se fazia de flor, mas escondia espinhos envenenados sob a pele macia. A sombra dela se infiltrou em mim quando eu ainda era luz demais para perceber.


E ali, naquele ônibus, foi como se a balança se invertesse. Ela não era mais a figura admirada, nem a intocável. Era só um corpo exausto tentando sobreviver ao próprio veneno. E eu, ainda que lutasse contra isso, me senti plena por vê-la assim. Não vingada, mas restaurada em algo que ela mesma havia quebrado em mim. O meu eu sombrio se acomodou em paz.


Foi um instante breve, mas intenso. E eu soube que a sombra em mim existe não por maldade, mas porque o bem cansa. A ingenuidade, quando pisada repetidas vezes, começa a desejar que o outro sinta o mesmo chão frio e duro que um dia nos forçou a engolir. Era essa parte de mim que sorria por dentro. A que cansou de ser boazinha. A que também quer ver a queda de quem disfarçou maldade com meiguice.


Ela desceu do ônibus. E eu segui meu caminho, ainda sentada, mais leve do que antes. Não porque me tornei má. Mas porque, pela primeira vez, deixei a sombra respirar. E entendi: eu posso ser empática, gentil e mesmo assim querer que a vida devolva, um pouco que seja, do que me tiraram.


Já a vi outras vezes, no mesmo estado: os olhos sempre fundos, os cabelos sem vida, o sorriso ausente. E sempre que a vejo assim, sinto um prazer que me assusta. Um calor silencioso que se esconde sob a pele, como se a sombra em mim tomasse o controle sem pedir licença. Tento justificar esse sentimento como justiça, como uma forma natural de reequilíbrio. E se não for? E se eu estiver me tornando aquilo que odeio? E se, ao saborear a dor dela, eu estiver, pouco a pouco, me afastando da luz que lutei tanto pra preservar? Carrego essa dúvida como quem carrega uma faca dentro do bolso: discreta, fria, perigosa. Ainda sou eu. Penso. Mas até quando?


E às vezes, quando estou sozinha, sinto que essa sombra já não me visita: ela mora aqui. Reage antes de mim. Sorri quando eu ainda estou em silêncio. E o pior é que começo a gostar da companhia dela. Não sei se ainda quero voltar a ser quem fui. A dor me ensinou coisas que a doçura jamais conseguiu. Talvez a transformação já tenha acontecido e tudo isso que digo ser dúvida, seja apenas o eco tardio de quem ainda tenta negar que foi, finalmente, corrompida.


A Maria,


que me mostrou como a maldade pode ter a voz doce.


De você levei feridas e, curiosamente, o nome também.


Batizei minha persona com o seu,


não por afeto… mas porque até a sombra precisa de um rastro de luz para existir.


No fim, foi você quem me deu o melhor dos disfarces.

 
 
 

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9 comentários


Inês Brasil
Inês Brasil
01 de jul. de 2025

felicidade pra vc monamur obrigada deus

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Maru Serano
Maru Serano
30 de jun. de 2025

Tenho nem palavras para esse texto. Parece que eu estou lendo uma história, uma narrativa. Me deixa com vontade de ler mais. Você é uma verdadeira escritora. Parabéns pela crônica!!!!

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Raven
Raven
28 de jun. de 2025

Texto espetacular. É fluido, intrigante, ao mesmo tempo reflete sobre seus sentimentos, sobre sua identidade, de forma linda. Parabéns pelas crônicas.

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Tuca
Tuca
27 de jun. de 2025

A fluidez do seu texto é algo admirável. Sou sua fã, Maria. Obrigada por nos deixar ler esses textos impecáveis. Desejo poder reler esses e outros textos seus no futuro, com certeza você tem algo gigante que te aguarda.

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Cafeína Em palavras
27 de jun. de 2025

Se entregou a temática de pseudônimos, ficou bom demais!!!!!

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