Menina Mulher da pele preta
- gabriel gonçalves
- 9 de mai. de 2025
- 3 min de leitura
Crônica por: Kenai
Sabe aquele momento que você não vê a hora de chegar e de repente você se vê nele? E ainda que simples tem tamanha profundidade a ponto da sua criança interior se sentir saciada, como se tivesse comido um pote inteiro de doces.
Você estava mais animado que eu, eu imagino, eram 5:18 da manhã e você já me ligava pra ir de encontro a sua família. Caso não saibam, meu lugar favorito no mundo é no mar, na praia, ainda que as curvas do seu corpo me lembrem muito as ondas do mar e sua voz a brisa de um dia tranquilo na areia à beira do cheiro da maresia. Talvez você também seja o meu lugar favorito.
A primeira viagem em casal é um marco, ainda que com a sua família, eu gosto de pertencer a um lugar que não é disfuncional de vez em quando. Nem lembro a que horas chegamos em Arraial do Cabo, subimos até o apartamento, ajeitamos minimamente nossas coisas e fomos pra areia, sabemos como qualquer pedaço de areia em Arraial é preenchido rapidamente.
Pode parecer simples mas eu estava em êxtase, o sol, a areia fina, a água do mar tão gelada e tão azul. Nós nos divertiámos igual duas crianças idiotas enquanto seus pais tentavam diferenciar qual gêmeo estava nadando para longe e qual estava na beira. Brincávamos com os seus irmãos como se fossem nossos filhos, foi o dia que eles pararam de ter ciúmes de mim e eu já não era mais uma ameaça.
Estávamos almoçando e vimos um banana boat e comentei que quando eu era criança eu tinha vontade de ir mas não sabia nadar, e quando eu vi já estavamos nos dois nadando contra a correnteza para subir nele. Foi um verdadeiro passeio de barco, sem barco e sem muito passeio também. Fomos a 3 pontos diferentes da praia onde o barco parava e podíamos mergulhar ali mesmo, e eu te via na água me esperando tomar coragem pra pular também. Eu acho que gosto do mar porque ele representa a profundidade que existe em mim que nem eu mesmo consigo explorar. Eu pulava, tentava ir o mais fundo que conseguisse pra sentir a paz de estar na imensidão do mar enquanto voltava lentamente à superfície. E a gente ria, muito. Mesmo quando eu fui pular e escorreguei. Não teve tanta graça.
Quando estávamos voltando para a areia eu prestava atenção em cada gota de água que voava, em como o vento mexia o mar, em como de longe tudo na areia era pequeno, e eu me sentia a pessoa mais feliz do mundo naquele momento. Quando voltamos pra areia eu só conseguia te olhar, olhar como você também estava feliz e eu queria morar naquele dia. Acho que em algum momento meu olhar deixou um pouco de ser de admiração e se tornou tesão porque você disse que estava constrangido, como se eu fosse te comer vivo ali mesmo. Uma das minhas fantasias ficou estampada na minha cara.
O final do dia foi como quando se é criança e se brinca tanto que você nem viu que dormiu. Dormimos e na hora de voltar pra casa estávamos ouvindo música e de repente eu percebo você chorando, logo você que sempre quer se mostrar o inquebrável, o forte e de signo de touro (não entendo de signos) chorando pq naquele momento me viu indo até você enquanto me esperava no altar.
Queria ter registrado esses momentos com fotos, mas o escrevo para não deixar que esse dia vire poeira na minha cabeça. A saudade é o preço que se paga pelos bons momentos.

Incrível descrição desse grande dia, que com toda certeza foi muito feliz, parabéns pelo texto
Que memória linda! Gosto muito da sua escrita, é possível sentir o momento e sentimento junto de você