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O silêncio que mora no pé de tamarindo

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 2 de mai. de 2025
  • 2 min de leitura

Crônica por: Elena Gilbert


Há um tipo de desejo que arde em meu coração, mas que não faz alarde. É um desejo que caminha em silêncio, mas tem peso de rio cheio que balançava pelo meu quintal. Vai cavando por dentro, como água que encontra fresta em pedra e momentos.



Esse desejo, em especial, não aponta para o que falta, mas para o que já foi. Ele não nasce de uma ausência qualquer, e sim de uma presença que se perdeu devagarinho ao longo do caminho. É um chamado que vem do fundo, de um lugar antigo da alma, um lugar onde os pés descalços conheciam a textura da terra e seu melhor amigo era o pé de tamarindo.



Na cidade grande, tudo é excesso. Excesso de som, de pressa, de luzes que não se apagam nunca, e não é possível ver o céu e as estrelas que brilham a alma. As pessoas andam com o corpo adiantado, como se estivessem sempre atrasadas para alguma coisa que nem sabem o nome. O desejo, ali, parece sempre voltado para frente para o que vem, para o que se conquista, para o que ainda não se tem.



Mas há um desejo que é contra o fluxo. Um desejo que não sonha com mais, mas com menos. Que não quer o próximo degrau, mas o chão batido de casa, o pertencimento aquele lugar. Um desejo que não almeja vitrine, e sim galinha ciscando quintal, passar horas comendo seriguela, manga, castanha e caju.  Como explicar esse desejo imenso de trocar o horizonte de concreto por um céu que chove inteiro sobre o telhado, goteja e depois deixa um cheiro de folha nova no ar uma vez ao ano. 



Esse desejo tem memória. Lembra do barulho do feijão fervendo, do cão que late ao longe sem urgência, do tempo que não precisava ser medido com relógio, mas sim nas sombras deixadas pelo sol. Lembra das tardes que não precisavam provar nada para existir. Há uma paz que só o interior conhece, não a paz do silêncio, mas a paz da vida que respira junto com o mato, os bichos e o vento.



O desejo que se volta para isso não é fraco, nem nostálgico. É profundo, é pertencimento. Porque no fundo a alma sabe onde mora. E sabe também quando está longe demais de si e precisa lembrar sempre que há um lugar onde o tempo não corre, ele repousa.

Que há um lugar onde o coração não se perde, ele repousa.


E que o desejo, esse bicho calado e insistente, só sossega quando volta pra casa. Mesmo que seja só em pensamento. Mesmo que seja só no sonho de um inverno chuvoso, no cheiro de terra molhada, no som de um mundo que ainda sussurra baixinho:

“Você pertence aqui e nunca foi embora.”




 
 
 

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4 comentários


kenai
kenai
06 de mai. de 2025

Que texto lindo! eu adorei a forma que vc conseguiu expressar algo "simples" de forma tão profunda

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florbela
03 de mai. de 2025

Gostei muito da forma como voce trabalhou com aquilo que é considerado “simples” mas tem tanto significado

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Jorge M
Jorge M
03 de mai. de 2025

Extremamente bem feita a contraposição do desejo do excesso com a simplicidade, trouxe uma visão única sobre essa tema que agrega muito ao conjunto das crônicas, além de uma escrita muito boa. Meus parabéns, Elena Gilbert.

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Peter Parker
02 de mai. de 2025

Crônica magnífica. O tom delicado que encharca esta crônica do início ao fim é único. Texto lindo, mais que lindo. Mais que um desejo. 🕷️

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