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Para a menina que deixei de ser

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 9 de mai. de 2025
  • 2 min de leitura

Crônica por: JellyBean


Não sei muito bem se deveria seguir o caminho da seriedade ou comédia, visto que, ambos trariam o mesmo resultado. No entanto, ao pensar em uma experiência que tenha me aproximado da morte, há uma lembrança que permanece comigo e sei que serei incapaz de esquecer. Naquele momento, pude sentir as garras de um destino temeroso ao meu redor.


Eu, uma mulher de 12 anos prestes a fazer 13, e ele, um menino na casa dos 30, nos encontramos em uma situação incomum: eu estava indo para a escola. Precisava virar a esquina para alcançar o transporte escolar. Nesse longo trajeto de menos de 10 passos, ele me viu. No lugar seguro onde morava costumava ter festas de grande proporção e fácil acesso às mais maravilhosas pílulas da felicidade.


O menino de 30 costumava usar essas pílulas com frequência. A mulher de 12 nunca havia sequer visto uma. Naquele lindo dia ensolarado logo pela manhã, ele me viu. Talvez por receber ajuda de alguns dos meus familiares ele sentiu que poderia se aproximar também. Não podia.


Foi rápido.


Seus braços me envolveram como erva daninha e seus lábios passeavam pelo meu rosto se apossando de algo que não o pertencia. Eu morri ali. Foi triste, angustiante, degradante. 


Como me libertei não sei, mas consegui. Ainda assim, nada podia me preparar para a pior parte: o apoio. Escutar que havia sido minha culpa foi como sentir a areia cobrindo meu caixão. Ainda me restava a angústia até que ouvi, da boca de uma das pessoas que deveria viver para me proteger que só havia um culpado. Não era ele. 


Ali, deixei de sentir dor. Até hoje não sinto, fiz as pazes com minhas cicatrizes e histórias porque são tudo o que me resta. Aquele menino matou a menina que havia em mim, mas meu genitor a enterrou. Não tinha mais medo da morte, tinha ânsia por ela. 


 
 
 

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2 comentários


kenai
kenai
13 de mai. de 2025

Eu sinto muito que tenha passado por isso, mais ainda pelo "apoio" que veio em forma de lobo em pele de cordeiro. Adoro o jeito que você escreve e espero que de alguma forma isso ajude com as suas cicatrizes.

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Jorge M
Jorge M
13 de mai. de 2025

Texto muito triste e profundo, sinto muito que você tenha passado por uma experiência tão horrível e traumática. Uma pena que tantas pessoas tenham que passar por isso, e pior, serem responsabilizadas pelos crimes que sofrem. Parabéns pelo texto e pela superação de conseguir escrever sobre isso.

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