top of page

Patrono

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 20 de jun. de 2025
  • 2 min de leitura

Crônica por: Kenai


Já tentou se esconder de si mesmo? É curioso como a gente aprende a fazer isso de maneiras quase artísticas. Eu, por exemplo, me escondo no barulho — música alta, gente falando, risadas forçadas. Vivo cercado de vozes para não escutar a única que realmente importa: a minha.


Sabe quando a gente se rodeia de pessoas que nem gostam da gente de verdade? Não é por carência, não. É medo. Medo de ficar sozinho com o próprio reflexo, medo de ouvir o que a mente sussurra no silêncio. Então a gente se ocupa. Ocupa o corpo, o tempo, a alma. Tudo vira desculpa pra fugir de si.


A minha sombra sou eu mesmo. Não é poético — é incômodo. Numa sala escura, acenda uma vela e todos vão olhar para a luz. Ninguém nota a sombra que ela projeta. Dizem por aí que eu sou uma pessoa "de luz", mas talvez essa luz seja só uma máscara que eu uso pra agradar os demais. Porque o que vive por trás dela talvez seja o meu verdadeiro eu.


Nem tudo o que a cabeça diz é verdade, eu sei. Mas minha sombra tem um fraco por mentiras bem contadas. Aquelas que vestem fantasias de verdades, que brincam com a sorte. Só uma mente fraca consegue matar um homem forte. Nossa mente é a pior arma, fique longe dos gatilhos.


Por fora, passo por confiante. Por dentro, minha sombra ri, debocha, diz que estou pagando mico. Com o tempo, aprendi a ignorá-la. Ou pelo menos finjo bem.


Não é um pensamento intrusivo. Não é paranoia. É só aquilo que eu realmente penso de mim mesmo — e, assim, cresce cada vez mais o complexo em que vivo. 

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Cartas que nunca chegam

O choro denso de uma mãe ecoa ao fundo da sala. As grades são tingidas pelo vento gélido das manhãs norte-americanas. O cinza predominante reluz nos olhos das crianças – que tão cedo se tornam as mães

 
 
 
Só na pele do cachorro

Renata e Juliana andam pelo centro da cidade. Viram esquinas, entram em lojinhas, batem perna, rodam por aí, tomam um cafézinho e continuam a andar. As calçadas cheias de pessoas fazendo o mesmo. As r

 
 
 
Apenas os pés

Lembro-me de abrir o jornal um dia e me deparar com a notícia de um homem que morreu em uma padaria. Foi negada a ajuda que poderia salvar sua vida. Nenhuma das pessoas presentes no estabelecimento li

 
 
 

6 comentários


tapioca
tapioca
07 de jul. de 2025

texto muito sensível, me tocou bastante! gostei muito, parabéns!

Curtir

Jorge M
Jorge M
01 de jul. de 2025

Muito interessante a crônica e a reflexão muito bem escrita sobre o medo de si mesmo, de estar na própria companhia. Gostei muito desse texto e da forma como você descreveu tudo nele, ótimo uso da adjetivação, e o conteúdo nem se fala. Parabéns pelo texto e por toda essa jornada de crônicas, uma honra ter sido da mesma turma que você, Kenai.

Curtir

Maru Serano
Maru Serano
30 de jun. de 2025

Muito delicado e bem escrito o seu texto. (Acho que todos usamos um pouco de máscara)

Curtir

Raven
Raven
28 de jun. de 2025

Acredito que seja um sentimento comum a maioria das pessoas, tentar fugir de si mesmo. Mas você escreveu de forma única, e com uma clareza incrível. Parabéns.

Editado
Curtir

Peter Parker
28 de jun. de 2025

Que crônica calma, Kenai. E, digo como elogio. Fui me identificando com você, mas durante o texto, você se faz tão única que é marcante — é singular, é especial. Talvez sua sombra seja uma onda turbulenta que, de vez em quando quer agitar a calmaria que é seu oceano. 🕷️

Curtir

©2024 por Ufficina de Leitura e Produção Textual 

bottom of page