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Quase amor

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 9 de mai. de 2025
  • 3 min de leitura

Crônica por: Maru Serano


Se apaixonar pode ser considerado uma experiência? Acredito que a grande maioria

colocaria tal sentimento em uma prateleira qualquer de fases da vida, mas amar você me

deixou marcas que, sem mesmo perceber, ainda ardem e se manifestam nos mais variados contextos. Acontece que, quando eu menos esperava, me vi diante de você. Soa até engraçado, porque nossos corpos sempre estiveram próximos o suficiente pra eu sentir, mas como entender o desconhecido? Foi um mar de receios quando eu pude perceber o que estava acontecendo. Eu me descobri quando você se foi. Eu tive que entender, sozinha, que todos aqueles meses de amizade tinham se transmutado em emoções jamais experimentadas por mim. Senti que não estava no controle. Uma ansiedade de me fazer tropeçar em meu próprio respiro, por não conseguir gritar todo o tumulto que se agitava com cada incerteza posta. Até que, com o tempo, eu me acostumasse com a sua falta.


Parecia que eu já estava nos trilhos baixos da montanha-russa e aquelas quedas

bruscas de velocidade não me afetariam mais como antes. Eu ingenuamente errei. Ter você

na minha frente de novo trouxe tudo aquilo à tona. Me senti aquela criança vulnerável

novamente, exposta; confusa; impotente. Mas acho que era tudo o que eu queria. Afinal, a

mera convivência já me dava a injeção de dopamina que eu precisava para determinar que aquele dia tinha sido bom. E foi assim durante meses. Nossa intimidade se aprofundando a cada troca, a cada olhar de cuidado e em cada momento que só queríamos estar em silêncio. As borboletas nunca bateram as asas tão fortes quanto batiam quando estávamos perto. Como uma única pessoa pode te matar aos poucos e te fazer sentir viva ao mesmo tempo? Com você eu descobri que amo toque físico. Eu me sentia vista, amada, por mais que você me oferecesse um espaço limitado, insuficiente para todo o caminhão de emoções que eu carregava no peito. Doeu muito. Doía todo dia saber que não era recíproco, que você não me enxergava com a maldade que eu gostaria. Eu até tentei me afastar um pouco, mas eu estava tão cega por esse apego que qualquer crise de angústia posterior valeria a pena. Sempre gostei da tensão, acho que como um vício, aquele flerte oculto carregado de significados. E sabe qual é o pior? Você sabia de tudo. Você sempre fez

questão de me manter por perto, mesmo sabendo que isso despedaçava ainda mais os

cacos já espalhados.


Foi assim durante muito tempo. Aprendi a lidar com a ausência. Finalmente me aceitei. Suportei e admiti que a nossa relação se limitava ao que era possível a cada uma entregar naquele momento. No entanto, não contava que, mais uma vez, você derrubaria toda a muralha que passei tanto tempo construindo. Mas dessa vez foi diferente. Você quis. Disse que sempre quis. E eu, que me vi nessa situação de desilusão, nunca acreditei que um dia pudesse ser mútuo. Sabe quando acontece algo que você esperou por tanto tempo? Me vi ali. O racional se perde diante dessas situações. Pela primeira vez pude demonstrar que estava entregue a você. Senti a boca que sempre me peguei olhando. Suas mãos tocaram meu pescoço e pela primeira vez pude sentir tesão, ao invés daquele pânico que tomava conta de mim quando você se aproximava. Ouvi sua respiração ofegante e me perdi no seu corpo, atrás de detalhes que eu não conhecesse sobre você. Lembro de me perguntar, por que demorou tanto tempo?Não sei o que deu errado. Eu estava bem antes. Talvez ela não tenha levado a sério

o quanto isso poderia mexer comigo. Talvez só tenha sido egoísta. Sabe que nunca sentiu o mesmo. Mas quem disse que eu queria ter algo? Conhecia as suas dificuldades. Acho que teria sido melhor se ela tivesse assumido esse papel de primeiro amor platônico. Tudo isso despertou muitas inseguranças. Me deixou no anseio de imaginar o que poderia ter sido. Por que ela foi embora? Ela de alguma forma sente a minha falta? São muitas dúvidas. Minhas perguntas nunca foram respondidas. Hoje estamos mais distantes do que nunca. Acho que é isso que ainda me prende nessa melancolia, a falta de um desfecho. O silêncio incomoda, me faz mergulhar nas mais profundas paranóias. Acredito que esse texto poderia perfeitamente se encaixar nas crônicas sobre trauma. Já amei outras vezes, mas quanto de você ainda existe em mim?

 
 
 

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3 comentários


kenai
kenai
13 de mai. de 2025

Eu achei um texto um pouco confuso de ler, o que retrata bem a confusão de uma relação que por um momento é só amizade e de repente se vê apaixonado pela pessoa mas também não se quer correr o risco de arruinar tudo o que tem pois viver sem a companhia dessa pessoa deixaria a vida mais sem graça. Adorei a reflexão!!

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Jorge M
Jorge M
13 de mai. de 2025

Demorei pra ler esse, e com certeza devia ter lido antes. Uma ótima reflexão sobre uma relação complicada e problemática, que infelizmente acabou em distância. Se apaixonar com certeza é uma experiência, e espero que sua próxima nesse caminho seja melhor e mais recíproca.

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nástienka
nástienka
09 de mai. de 2025

Você conseguiu expressar muito bem a confusão e a intensidade do amor não correspondido. Parabéns pelo texto!

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