top of page

Regime provisório

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 30 de mai. de 2025
  • 2 min de leitura

Crônica por: Fernanda young 


Tem coisas que a gente não escolhe, só descobre morando dentro delas. Eu, por exemplo, me encontro entre duas encrencas que adoram brigar dentro do mesmo corpo: o Governador e o Amante. Um é aquele que tenta dar um jeito na bagunça toda, fingindo que sabe onde pisa, mas a verdade é que vive tropeçando em suas próprias certezas, e desmorona no silêncio, sozinho.


O outro é aquele que chega sem avisar, desmonta a casa, quebra tudo e ainda te olha com aquela intensidade que não perdoa — o tipo de amor que faz o Governador surtar de vez.


Construir ordem virou minha forma de sobreviver, um esforço desesperado pra fingir que tudo está sob controle, mesmo quando sei que está tudo a um passo da implosão. O Governador em mim é isso: um mestre em disfarçar falhas, um impostor que tenta segurar o caos com unhas e dentes, mas que no fundo sabe que o jogo está perdido.


E é aí que o Amante entra. Esse safado aparece pra jogar gasolina no fogo. Ele não respeita nada, não tem hora marcada, não aceita combinado. Ele é o motivo pelo qual o Governador surta em crises nervosas às três da manhã, porque o Amante faz questão de sentir até o que não devia — e insiste em entregar tudo, mesmo sabendo que vai perder tudo no processo. Amar, pra essa metade minha, é um ato de rebeldia suicida. É um erro tão lindo que não tem manual, nem previsão no calendário, nem planilha que aguente.


A verdade? Amar me destrói. Me tira do pedestal, me deixa nua, sem defesa, sem decreto, sem argumento. Amar é admitir que o controle é uma piada e que o que importa mesmo é o risco de se entregar. É uma escolha absurda, uma loucura que só os corajosos ou os desesperados se permitem.


No fundo, sou esse regime provisório — um amontoado de falhas, vícios, medos e vontades que brigam entre si sem trégua. Tento governar, mas já tô caída; tento amar, mas já tô ferrada. E, nesse conflito de querer mandar e ao mesmo tempo se lançar no precipício, só me sobra ser exatamente quem eu sou: uma bagunça, uma contradição ambulante que não sabe se ordena ou se entrega.


E que assim seja.


 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Cartas que nunca chegam

O choro denso de uma mãe ecoa ao fundo da sala. As grades são tingidas pelo vento gélido das manhãs norte-americanas. O cinza predominante reluz nos olhos das crianças – que tão cedo se tornam as mães

 
 
 
Só na pele do cachorro

Renata e Juliana andam pelo centro da cidade. Viram esquinas, entram em lojinhas, batem perna, rodam por aí, tomam um cafézinho e continuam a andar. As calçadas cheias de pessoas fazendo o mesmo. As r

 
 
 
Apenas os pés

Lembro-me de abrir o jornal um dia e me deparar com a notícia de um homem que morreu em uma padaria. Foi negada a ajuda que poderia salvar sua vida. Nenhuma das pessoas presentes no estabelecimento li

 
 
 

6 comentários


tapioca
tapioca
07 de jul. de 2025

Parabéns, texto muito bem construído e extremamente criativo!!

Curtir

Maru Serano
Maru Serano
29 de jun. de 2025

É uma crônica melhor que a outra. A estruturação do texto, as pontuações, as figuras de linguagem... Olha, baita escritora

Curtir

florbela
27 de jun. de 2025

Você sempre entrega tudo e mais um pouco, sua escrita me deixa sem palavras

Curtir

Jorge M
Jorge M
17 de jun. de 2025

Texto muito bem escrito, muito interessante se colocar em dois distintos arquétipos, e explicar tão bem essa escolha e esse contraste. Parabéns pelo texto.

Curtir

Botânico
Botânico
30 de mai. de 2025

Acho que todos os elogios e boatos que ouço de você são definitivamente inferiores a quem você é, que texto incrível de escrever, chega até me dar uma raiva kkkkk, a forma com que você trata a dualidade nos textos é tão... 🪻

Curtir

©2024 por Ufficina de Leitura e Produção Textual 

bottom of page