Ritual
- gabriel gonçalves
- 9 de mai. de 2025
- 2 min de leitura
Crônica por: Maria Brunari
Ela me encara. Pela primeira vez, não soube identificar a expressão em seu rosto. Seu olhar desce, e eu o acompanho. As cartelas estão espalhadas pelo chão, comprimidos dispersos como pequenas promessas de silêncio. O sangue ainda escorre pelo meu corpo, traçando caminhos que já conheço. Segundos depois, ela começa a falar. Não me importo. Nesse exato momento, já não me importava com nada. Estava anestesiada.
Percebendo meu silêncio, sua voz se eleva, trêmula, até desabar em lágrimas. Eu a observo, distante, tentando me sentir comovida, mas é inútil. Eu, que era um turbilhão de emoções segundos antes, agora estava sedada, apática, como se cada parte de mim tivesse sido desligada.
Não era a primeira vez. Eu sabia exatamente como calar a dor que insistia em aparecer, como se tivesse aprendido a fórmula de um esquecimento provisório, mas eficaz. Pequenos segredos engolidos em silêncio, todos os dias. Eu decorava os nomes, as dosagens, os efeitos colaterais e as contraindicações. Para mim, o que importava era o que não estava ali: a pausa, a sensação de afundar devagar em um vazio onde a dor não conseguia me alcançar.
Com o tempo, o ritual se expandiu. As cartelas se multiplicavam em gavetas, bolsas, entre páginas de cadernos antigos. Um estoque silencioso, quase calculado. Primeiro, uma ou duas. Depois, quantas fossem necessárias para silenciar o que gritava dentro de mim. Eu não me importava com a quantidade, só queria parar de sentir. Era o único jeito que eu conhecia para calar aquele eco incômodo, aquele buraco que se alargava cada vez mais.
Depois, eu deitava. Não me importava com a bagunça que ficava — os frascos vazios como conchas abandonadas pela maré, o sangue seco desenhando mapas indecifráveis sobre a pele. Apenas deitava, entregando meu corpo ao peso de um sono que me arrastava para longe. Era um naufrágio lento, um afundar sem resistência, como se cada parte de mim desejasse desaparecer nas profundezas daquele esquecimento. Dormia por dois, às vezes três dias seguidos. O tempo se dissolvia, os dias perdiam os contornos. Eu afundava, e o mundo sumia.
Mas o sono sempre acabava. Eu ansiava o fim, mas era o sono que vinha. O despertar era um ato de violência, como se a realidade me puxasse de volta pelos pulsos, arrancando-me da calmaria sufocante do esquecimento. A decepção me tomava por inteira ao perceber que ainda estava ali. Não falo apenas de corpo físico. Falo de mente sóbria, lúcida, mergulhada outra vez no vazio que me acolhia como um velho conhecido. Persistente. Imutável. Era como acordar dentro de uma casa em ruínas, onde cada parede sussurrava lembranças do que um dia foi sólido. Fugir era apenas um intervalo — nunca um destino.
E, de um jeito cruel, concomitantemente, era a melhor e a pior experiência. A melhor, porque o silêncio finalmente chegava, envolvendo cada parte de mim em um esquecimento doce e vazio. Um alívio raro, como se o mundo lá fora deixasse de existir por alguns instantes. A pior, porque esse mesmo silêncio me lembrava, em seu eco sufocante, que eu ainda estava ali. Presa entre a anestesia dos sentidos e o peso brutal do despertar, como alguém que flutua entre o sonho e a realidade, mas nunca pertence a nenhum dos dois.

Escrita impecável. Me senti dentro da sua histórica. Admirável a sua capacidade de conseguir contar isso de uma forma tão sensível e profunda.
Sua escrita já havia me fascinado anteriormente, mas hoje você me arrebatou. Que talento, que final! Estou sem fôlego. Maria, você é preciosa e forte demais, é tão bom ler alguém que consegue transformar experiências tão difíceis e profundas em beleza. Obrigada!
Pessoas que amo já praticaram esse ritual. A forma como você contou me encheu de sensibilidade, parabéns pela escrita.
Tive que ler duas vezes para entender a complexidade da mensagem dessa crônica. Um relato muito profundo sobre esse ritual, que parece ter se tornado um vício, de alguém que vive entre a realidade e a fuga dela. Meus sinceros parabéns pelo texto, temos muita sorte de ter uma escritora desse nível entre nós.