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Sentimental

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 2 de mai. de 2025
  • 2 min de leitura

Crônica por: Raven


De tanto eu te falar, você subverteu o que era um sentimento, e assim, fez dele razão pra se perder no abismo que é pensar e sentir.” Ao pensar em escrever sobre desejo, nada vem à cabeça. Mentira, uma única ideia repetidamente volta: eu sempre quis ter algum desejo profundo. No entanto, escrever uma crônica sobre seu maior desejo ser, simplesmente, ter algum desejo, soa como uma constrangedora mistura de reflexões feitas em bares após duas da manhã, análises de cinéfilos, e as letras mais rasas de Jorge Vercillo. Ainda assim, seguirei nesse vazio filosófico, seja por algum mecanismo psicológico de auto-defesa, ou por alguma fagulha de verdade.

Eu sempre invejei aqueles que sonhavam com algo. Mesmo em um mundo frio, construído por caminhos sem rumo e propósito, para eles existe algo que é o suficiente para tudo valer a pena. Desde uma profissão que nasceram para fazer, uma causa para lutar, um amor. Nunca senti nada disso. Sempre sonhei em visualizar uma escadaria clara, subi-la correndo, tropeçar nas minhas próprias hipocrisias, mas seguir adiante, seja o que vier, mesmo que termine em lutas contra moinhos de vento. Mas não, todos meus sonhos sempre pareceram ser facilmente triturados, não pelo mundo ou moinhos, mas por mim. Não existe um impulso impossível de ser controlado, uma emoção que não pode ser dissecada. Talvez eu tenha falado demais.

Eu nunca sou ridículo. Não, ridículo nunca. Para conseguir isso, talvez acabei jogando fora, com a água do banho, o bebê, o ditado, a vida, a ideia. Essa mesma tive que resgatar do lixo. Tentei limpá-la, vesti-la, torná-la bela. Falhei, terminou medíocre, assim como tudo. Não, nem isso, “medíocre” ainda tem alma, mesmo que incompatível com seu significado. Mas ela não, não passa de um dia nublado qualquer, uma comédia romântica genérica, uma vitória no campeonato carioca, o décimo melhor livro de um autor bom. Mas ridícula nunca. Tento empilhar analogias e metáforas para deixar esse abismo, que me perdi, pelo menos um pouco mais profundo. Mas, sei que me afogo em águas rasas. Talvez, como disse Cazuza, acabei prendendo demais o choro, e aguando o amor, e a vida, e tudo. Mas, ao contrário de Fernando Pessoa, não escrevo isso para provar que sou sublime. Na verdade, nem sei por que escrevo.

 
 
 

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5 comentários


Jorge M
Jorge M
03 de mai. de 2025

Uma interessante reflexão sobre a falta que faz ter um desejo, um norte, um caminho claro para qual seguir. Me reconheci demais em suas palavras, vendo tantas pessoas falarem sobre as áreas que amam, e por vezes, não entender qual é a que nós nos encaixamos. Parabéns pelo belo texto.


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nástienka
nástienka
02 de mai. de 2025

Texto muito verdadeiro e com uma escrita muito boa. Parabéns, Raven!


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Peter Parker
02 de mai. de 2025

Texto singelo, verdadeiro, cru. Crônica incrível, Raven!

Escrita muito boa. 🕷️

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Botânico
Botânico
02 de mai. de 2025

Raven adorei seu texto, conseguiu expressar bastante sentimento porém, supondo que o erro tenha vindo de quando você estava enviando o texto, acho que seria legal você revistar seu texto antes de enviar pra não ter erros de ortografia, como a crase (") solta no inicio do texto, assim como eu no meu texto de semana passada.

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capitu
capitu
02 de mai. de 2025

Uau! Quanta verdade você conseguiu colocar na sua crônica, Raven!

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