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Simbiose

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 2 de mai. de 2025
  • 2 min de leitura

Crônica Por: Maria Brunari


Simbiose: termo originado dos étimos gregos sym (junto de) e bios (vida), usado pela biologia para designar uma relação funcional e produtiva entre dois organismos que interagem de modo ativo visando o proveito mútuo.


Eu neguei. Neguei como quem tenta conter um incêndio com panos molhados. Repetia, como mantra, que era só amizade, só afinidade, só conforto de quem se conhecia bem demais. Vesti a moral como armadura, me escondi atrás de convenções — porque o que havia entre nós não pegaria bem. Era um terreno delicado, quase sagrado. Intocável. Moralmente intransponível.


Mas desejo não tem ética. Ele escorre por entre as regras, se insinua nos detalhes, se aloja nos poros, se infiltra nos silêncios, se alimenta daquilo que é contido. E foi numa das sextas mais exaustivas de outubro — daquelas em que a alma pesa e o corpo clama por abrigo — que ele explodiu.


Dividimos uma cama como já havíamos feito outras vezes, por acaso, por cansaço, por amizade. Mas naquela noite, o ar tinha outra densidade. A exaustão afinou os filtros, derrubou as barreiras, escancarou o que sempre esteve ali. E quando nossos corpos se tocaram, não houve volta. Era como se, de repente, fôssemos imã e metal. Pele buscando pele, respiração se confundindo, urgência nos olhos. Uma simbiose febril, inevitável.


Passei semanas tentando nomear aquilo. Seria amor? Era intenso demais para ser apenas desejo. Mas cru demais para ser ternura. Me fazia tremer por dentro, como quem precisa de outro corpo para se manter de pé. Eu estava viciada. Obcecada. Só muito tempo depois, com os cacos espalhados ao redor de tudo o que fomos, que entendi que não era amor. Era mais bruto, mais primitivo. Era necessidade. Desejo em estado puro, sem nenhuma delicadeza. Uma fome que nos consumia enquanto fingíamos controle.



E como tudo que é urgente e descontrolado demais, terminou em caos. Extrapolamos o limite do que nunca deveria ter sido tocado. Rompemos a linha tênue entre o permitido e o inconfessável. E o que antes era amizade virou poeira. A cama daquela sexta virou um campo minado. Partimos de um mutualismo — em que havia troca, cuidado e equilíbrio — para um parasitismo silencioso. Quando o desejo passou a se alimentar mais de ausência do que de presença, quando um se esvaziava para que o outro se preenchesse, já não havia mais simbiose. Restou apenas o desgaste de uma conexão que, ao invés de nutrir, começou a corroer. E assim, o que nasceu como abrigo virou ruína.

 
 
 

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5 comentários


kenai
kenai
06 de mai. de 2025

Me lembrou de uma ópera chamada Carmen que diz " o amor é um menino cigano que nunca conheceu qualquer regra". Também gostei de como vc reconheceu a necessidade como algo anterior, primitivo, ao desejo

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florbela
03 de mai. de 2025

Uma crônica muito boa de ler, eu amei o dinamismo que você trouxe para o texto.

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Izabel Dos Prazeres
Izabel Dos Prazeres
03 de mai. de 2025

O prazer é o que faz a vida valer a pena e seu texto nos leva lá. Transparece tesão, desejo, mas também muita culpa. As coisas seriam mais fáceis se compreendêssemos essa coisa de desejo não ética, como disse. Seriamos melhores se as amizades tivessem mais cor. Sua escrita é fenomenal, Maria. Que prazer te ler!

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Jorge M
Jorge M
03 de mai. de 2025

Maria, tenho a sorte de dizer que fui uma das pessoas que leu com atenção a sua incrível crônica da semana passada. E essa agora só comprova meu comentário anterior, sobre o quanto você tem habilidade com as palavras, e principalmente, com os adjetivos. Meus parabéns por esse lindo texto, que traz conceitos complexos em forma de termos compreensíveis, e sinto muito que uma relação boa tenha se corrompido dessa forma por conta desse incontrolável desejo.

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Peter Parker
02 de mai. de 2025

Texto FANTÁSTICO. Ao começar a leitura achei que seria uma leitura metódica, a explicação do termo "simbiose" nos traz esse sentimento. Mas estava errado. Logo no terceiro parágrafo você nos impõe, nos transparece a sua vontade.


A emoção, a intensidade, a sua personalidade, tudo isso nos prende no texto do início ao fim, nos acorrenta como um navio no cais. Parábolas extraordinárias, a ligação com o tema desejo, explícita e raramente implícita na crônica do início ao fim. Achei extraordinária a crônica e sua escrita. Para mim, que entendo pouco ou quase nada sobre crônicas e literatura, deixo aqui os meus parabéns. 🕷️

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