Simpática
- gabriel gonçalves
- 20 de jun. de 2025
- 2 min de leitura
Crônica por: Raven
Todo dia Laura faz tudo sempre igual. Acorda cedo, arruma seu café e do seu irmão, vai para a escola integral e depois volta para casa.
Laura nunca foi uma criança agitada, o que seus pais sempre elogiaram. Teve alguns poucos episódios de “ataques”, em que começava a chorar ou gritar sem motivo, ou era grosseira com algum adulto. Pela sua raridade, esses momentos ainda são relembrados até hoje por seus pais. Porém, sempre são seguidos pela frase: “(...) Mas, ela deu muito pouco trabalho”.
Laura antigamente falava um pouco mais. Algumas vezes, ia contar algo para seus pais, mas as respostas não eram muito animadoras. “Por que você está falando isso?”. Aparentemente, era necessário um propósito maior para conversar.
Atualmente, está no Ensino Médio e vai de ônibus para a escola. Poucas coisas a estressam. Uma delas, é a senhora que todo dia fica no seu ponto. A senhora não para de falar. Todo dia reclama sobre seus filhos, família, vizinhos, trabalho, ou o que conseguir, para quem quiser ouvir. Laura sente muito ódio. Sua imaginação começa com um simples “cala a boca”, mas sempre termina pensando em empurrá-la na frente do primeiro ônibus que passar.
Na escola, sempre é simpática com todo mundo, e nunca dá trabalho para ninguém. Tem várias amigas, mas, uma delas também a irrita com frequência. Toda hora sua amiga começa a chorar, por qualquer motivo. Laura novamente fantasia diferentes ofensas, mas acaba ficando em silêncio.
Voltando para casa, Laura busca seu irmão na aula de natação. Ele odeia nadar e sempre volta gritando e/ou chorando. Engolindo a raiva, ela ainda tenta consolá-lo o máximo que consegue.
Finalmente em casa, Laura se tranca no seu quarto. Sozinha, fica horas olhando as redes sociais. Se indigna com diversos absurdos, e se sente transbordando de raiva. Dessa vez, ela finalmente pode responder o que quer, e assim, começa a pensar nas maiores atrocidades que consegue para cada um daqueles merdas.
Mas, no fim, todo dia ela se sente cansada demais para fazer qualquer coisa, e vai dormir.

Adoro esse uso da 3ª pessoa. É péssimo não enxergarem como você realmente se sente. Boa crônica!
Raven, que crônica incrível. Me identifiquei e fui entretido com sua narrativa do cotidiano de Laura. Ser alguém falante que foi se calando com o tempo é horrível. E, assistir aos outros se expressarem, enquanto você perdeu o gosto pelo exagerado é tão ruim quanto.
Obrigado por essa última crônica tão gostosa!
A injustiça de alguns poderem se expressar, serem irresponsáveis e chorões enquanto vc tem que aguentar tudo e mais um pouco e algo q inevitávelmente causará raiva, entendo completamente a Laura.