Um peito enorme
- gabriel gonçalves
- 2 de mai. de 2025
- 2 min de leitura
Crônica por: Izabel dos Prazeres (ou Bel-Prazer)
“Eu faria muito melhor!”. É o que eu, ainda criança, dizia sempre ao me deparar com alguma celebridade mirim da minha geração na TV. Criticava pequenos apresentadores, jovens músicos, atores… Eu desejava ser um deles. Queria ser famosa simplesmente por ser — não almejava exibir nenhum talento específico para o mundo. Queria apenas que meu nome fosse conhecido. Um dos meus grandes sonhos era dar uma entrevista, vejam só. Apenas isso. Não sabia nem sobre o que falaria, mas tinha certeza de que não seria difícil. Na escola, juntava meus coleguinhas para gravar vídeos, fazer peças, formar bandas… Atirava para todos os lados e acreditava sempre acertar o alvo necessário para satisfazer meu desejo.
“Quando você crescer, você posta o vídeo que quiser. Mas hoje, não. Apaga isso”. Era o que minha mãe respondia quando eu ia pedir permissão para expor alguma das minhas inventices na internet. Vai saber se por sorte ou azar, ela cortava minhas asinhas com pouca delicadeza. Olhando para trás, eu poderia ter me tornado uma grande influenciadora digital e feito rios de dinheiro. Ou talvez, se tivesse me exibido daquela forma, hoje provavelmente teria sérios distúrbios de imagem. Algo é certo: teria sofrido um bullyingestratosférico. (A maturidade me fez reconhecer que eu não era tão boa na maioria das coisas a que me propunha. Espero que algum dia a Maísa e o elenco das novelas infantis do SBT me perdoem por ter direcionado tanta energia negativa a eles.)
Sem me dar conta, os anos passaram e eu não percebi o peso que a opinião da minha mãe ganhou para mim. Fosse por suas proibições do passado ou por outros motivos, impressioná-la se tornara meu maior desejo. Mais consciente das minhas aptidões, eu poderia ter êxito e conquistas em diferentes áreas, mas, se ela — e somente ela — não estivesse orgulhosa de mim, de nada valia. Tentei seguir sua religião, mas o modelo não funcionou para mim. Tentei até mesmo imitar sua profissão, mas ainda parecia muito distante de conseguir deixá-la plenamente feliz. Quando percebi que jamais conseguiria suprir suas expectativas, essa decepção acumulada incumbiu-se de gerar um novo desejo. Esse, era maior e mais intenso do que os anteriores: agora eu queria me afastar de tudo que era ela em mim.
Me revoltei. Neguei sua fé, corri atrás da minha própria carreira, fiz de tudo para lhe dar desgosto. E dei. Dei pra Deus e o mundo, dei horrores! Não me chamo Bel-prazer à toa. Cuspi na castidade que me era exigida, envergonhei minha família e faço questão de ostentar minha profanação em cada passo e decisão que tomo. Só com muitos excessos é que se consegue matar uma mãe dentro de si. Falando assim parece fácil, mas não se engane. Romper laços, encarar quem se é e sustentar o que se ambiciona não é pra qualquer um, meu bem! É preciso ter MUITO PEITO. Eu descobri que ambiciono tudo que é meu por direito e, felizmente, meu peito é enorrrrrme. Graças à minha genética.

Em apenas dois textos eu já posso dizer que eu adoro a forma como você escreve, Isabel! Você não dá espaço para a divagação ou a dúvida, você traz o nu e cru (literalmente). Gosto da sua objetividade. Direta, mas sem perder o colorido. Ansiosa pra ver ainda mais de você! :)
ps: "Só com muitos excessos é que se consegue matar uma mãe dentro de si." ............. uau
Quebra de expectativa executada com sucesso. Um texto com muitas camadas, assim como sua autora, que tem uma coragem invejável. Parabéns, mais uma grande crônica, já aviso que estou na expectativa para a próxima semana.
FABULOSA. ÍCONE. EXTRAVAGANTE. EXTRAORDINÁRIA. INESQUECÍVEL.
Crônica eufórica, só resta aplausos, o jeito como a crônica te cativa do início ao fim, sem dúvidas é insana e admirável. Para ser mais como Bel-Prazer é preciso de muito peito, este tenho pouco. Única. 🕷️
Euforia! Derreto-me com a sua escrita chocante e extravagante. Ansiosa por mais e mais!