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Um último tirar de máscara

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 23 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

Crônica por: Peter Parker


Às vezes eu me pego pensando, olhando pro nada, em silêncio, com um aperto no peito que não tem nome certo. Não é dor, não é tristeza. É como uma saudade de algo que nunca tive — que, de vez em quando, grita baixinho dentro de mim. E eu escuto. Mesmo quando estou com o fone tão alto que não consigo sequer escutar a vida da qual tanto sou fã.


Carrego comigo um medo antigo — o clichê de ser deixado, sabe? Mas não fisicamente. É o medo de ser ignorado, abandonado de novo, esquecido. Me recordo da minha infância, quando tantas vezes mentia — e não por mal, mas por medo. Eram mentiras bobas: lembro de mentir que fui à Disney, só para que pensassem que eu era mais interessante do que sou. Desde novo, eu já tinha medo de ser eu, medo da minha insignificância, medo da soma de tudo que me compõe. Tinha medo de não ser aceito se fosse tão excêntrico.

Não só tinha. Tenho.


Esse medo me empurra a fugir do que é profundo, do que exige entrega de verdade. Porque ser visto por inteiro é ser exposto — e ser exposto é também correr o risco de não ser acolhido. E, sinceramente, já tive que ter força demais pra lidar com o que me faltava.


Às vezes penso que sou um moleque que aprendeu cedo demais a ficar de pé. Não porque eu quis — mas porque alguém precisava ficar. E nesse papel de ser a parede que não cai, fui calando partes de mim. Engoli a raiva, a tristeza, a solidão. Fui virando equilíbrio numa casa onde tudo parecia balançar.


Aprendi a ser o filho perfeito: o que não chora, o que ajuda sempre, o que tira boas notas, que não briga na escola, que não levanta a voz, que acalma e sempre entende o outro.

E, pra compensar o silêncio em que me vi reprimido, comecei a gritar sem som.


Com atitudes, com urgências, com vontades por vezes tão exageradas. Talvez por carência, talvez por um buraco no peito que ninguém nunca viu. Outras vezes, porque só queria ser notado. No fundo, eu só queria ser o centro de alguém — sem ter que pedir ou implorar, só ser reconhecido, sem méritos ou devaneios. Talvez por isso eu sempre queira ser o “centro das atenções”. Juro que, no fundo, não é maldade.


Carrego um medo quase infantil de perder quem amo. Um medo que não se explica — só se sente. Um medo que me faz checar a todo instante se tá todo mundo bem. Que me faz amar com intensidade disfarçada. Que me faz ficar quieto quando estou à beira de colapsar — só pra não preocupar ninguém, num ambiente que já tem tantas outras preocupações além de mim.


Mas, quando alguém chega perto demais — quando alguém ameaça ser real, ameaça me conhecer tão bem quanto minha alma — eu fujo. E não por falta de sentimento, mas por excesso. Excesso de medo.


Porque amar é se despir, é deixar o outro ver suas rachaduras e a porta que range quando aberta, o menino ferido que se esconde nas minhas sombras.

Tenho medo disso. Medo, não: pavor.

Tenho medo de que, se alguém quiser abrir este livro que eu sou, não termine a leitura — hábito que, ironicamente, tenho com livros de verdade.

Então, pra evitar isso, eu fujo antes. Não por ser covarde, mas por autoproteção.


Pelo menos… prefiro acreditar assim.


No fim das contas, eu só queria ser frágil sem me culpar. Só queria não precisar sempre ser o pilar que sustenta a casa. E que, se algum dia alguém me olhasse com carinho e não me exigisse ser uma parede firme, eu tivesse a coragem de ficar.


Talvez, minha sombra seja isso tudo reprimido.

Todos esses sentimentos, esses vazios. E também o medo de nunca olharem para mim. Talvez por isso eu seja tão espalhafatoso.


Num último ato, como Peter Parker, fico aqui despido de ego ou pseudônimo, esperando que, para aqueles que eu amo, seja possível me enxergar — mesmo quando estou mais quieto do que o normal.


E a você que mais uma vez se dedicou a ler uma crônica escrita por mim: obrigado. No fim, vocês me conhecem mais do que imaginei que conheceriam.


Até dia primeiro. Ou não.

 
 
 

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24 comentários


bernardo soares
bernardo soares
04 de jul. de 2025

Herói da vizinhança

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Maria Brunari
04 de jul. de 2025

Confesso baixinho: eu sempre leio tudo que você escreve, Peter. Às vezes me sinto lendo coisas que nunca consegui dizer, mas que alguém escreveu por mim. Esse texto me doeu e me acolheu ao mesmo tempo. Obrigada por se despir assim!

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Inês Brasil
Inês Brasil
01 de jul. de 2025

arrasou graças a deus

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Peter Parker
01 de jul. de 2025
Respondendo a

Que saudades, Inês! 🕷️

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nástienka
nástienka
30 de jun. de 2025

Peter, desde a primeira semana você sempre soube expor seus sentimentos e pensamentos de uma forma tocante, sensível e extremamente emocional. Foi um prazer ler suas palavras durante esse semestre! Mais uma crônica belíssima. Uma linda despedida!

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Peter Parker
01 de jul. de 2025
Respondendo a

Obrigado, Nastienka! Vindo de alguém com textos tão memoráveis, tão marcantes, significa mais ainda. Fico feliz demais que tenha gostado. 🕷️

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Botânico
Botânico
28 de jun. de 2025

Peter, esse texto foi tão unico, tão visceral e tão pulsante de emoções que só me resta chorar e deleitar por esta obra prima. Você nunca precisou nos chamar atenção mas nos conquistou tanto pelas suas maravilhosas crônicas tanto pela sua profunda dedicação de estar lá sempre comentando em nossas crônicas.

Foi um imenso prazer poder ler suas crônicas e estou muito ansioso para conhecer uma pessoa tão maravilhosa quanto você se mostrou.🪻

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Peter Parker
29 de jun. de 2025
Respondendo a

Passou batido de novo, fim de semestre tem sido cansativo! 🕷️🕷️

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