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Uma dose diária de solidão

  • Foto do escritor: Isabela Pelluso
    Isabela Pelluso
  • 2 de mai. de 2025
  • 2 min de leitura

Crônica por: Inês Brasil


Querido leitor, gostaria de te contar como eu sempre quis ter alguém,

saber aquela sensação de abraçar, não como um cumprimento, algo como se

realmente precisassem de mim e da minha presença. Lembro-me da única

vez que um abraço ficou em minha memória: eu chorava tanto, e ela também;

sabíamos o que estávamos perdendo, e a única certeza seria que juntas

teríamos que passar por todo um desastre. Foi o único abraço que eu lembro

de realmente receber na vida, quando você sabe que realmente tem um lugar

para estar e é confortável, não quer sair dele. Já se sentiu assim?

Todas as vezes que via os famosos beijos de filme, ficava pensando

quando iria acontecer comigo de verdade. Esse amor acalorado e cheio de

emoção. Esse abraço que mencionei aconteceu há quatro anos, e desde

então não recebi mais nenhum. É difícil viver sozinha, ser solitária, e os

outros pensarem que gosto dessa solidão. Na verdade, eu me acostumei.

Fico com borboletas na barriga ao imaginar algo como alguém ansioso para

me ver ou até para compartilhar algo comigo; sempre quis que alguém

confiasse em mim ao ponto de contar até os mínimos e insignificantes

pensamentos. Esse alguém ainda não está presente na minha vida.

Talvez seja possível quando eu tiver filhos, mas eu não quero filhos.

Talvez eu esteja fadada a viver incompleta e sem uma reciprocidade, uma

atenção mínima para a minha existência. Estou sozinha desde o meu

nascimento; fui desejada por pouco tempo. Brinquei sozinha, falei e comi

sozinha por diversas vezes. Hoje tenho medo das pessoas, medo do que

pensam. Sei que não sou tão agradável, não sou popular ou procurada para

algo. Sempre preferem os arredores a mim, e isso vai sempre me perseguir.

Minha única saída são os romances impossíveis. Passo noites em claro

imaginando todas essas expectativas em cima dele, aquele garoto lá longe

que nunca nem me viu ou nem ousa saber meu nome. Sei bem o nome dele;

tenho vontade de abraçá-lo para que ele saiba o que é um verdadeiro abraço;

tenho vontade de beijá-lo para que ele realmente saiba como alguém o

anseia e espera por ele. Tenho as maiores vontades de dizer as mais belas

palavras e dedicar a ele os mais belos poemas, por mais que nunca vá

chegar a ouvir. Tenho o desejo de mostrar a ele o que eu mais sonho de

acontecer para mim. Sonho em provar que há alguém por ele.

Tem um outro, que é muito colorido em minha vida, o garoto é bonito,

florido e brilhante, eu o amo, mas não chega aos pés daquele que está mais

longe ainda, intocável e inatingível. Apesar de morar no meu quintal, o

arco-íris não está tão perto do meu coração quanto o astro que está a

quilômetros de mim. Ninguém nesse mundo poderia me fazer apaixonar duas

vezes pela mesma pessoa, além dele, que está a muitas realidades além daminha. Ele é inacreditável. Ele é o meu maior desejo. Ele é a minha solidão. E

você, tem alguém que console sua solitude?

 
 
 

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3 comentários


nástienka
nástienka
02 de mai. de 2025

Ótima crônica, Inês! Sentimento muito humano, afinal, todos nós desejamos ser profundamente amados.

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Peter Parker
02 de mai. de 2025

Crônica incrível, Inês. Creio que quanto mais distante estamos, quanto mais improvável ou impossível pareça algo, mais o desejamos, mais o almejamos. As vezes, para nos reafirmar como capazes de conquistar até o improvável. 🕷️

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Botânico
Botânico
02 de mai. de 2025

Oi Inês, texto muito lindo e profundo, entendo bastante sobre essa sensação que você descreveu no texto mas eu acredito que você vai encontrar alguém sim, afinal acredito que todo mundo merece a felicidade.


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