Gula
- Fani Pimenta
- há 3 dias
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”Nossa, não sabia que você era inteligente”. Eu não estava me esforçando tanto quanto devia pelo visto.
“Você tem potencial”. Então ainda tenho muito o que melhorar.
“Você fica melhor de cabelo solto”. Então não fico bem de cabelo preso.
“Nossa, você fala muito sobre isso”. Eu devo ser muito irritante.
”Essa foi uma escolha corajosa”. Ele com certeza achou uma merda o que eu fiz e está tentando me confortar.
É engraçado como uma frase pode ter diferentes interpretações, não é? Dependendo da hora, dia e mês, é muito comum que uma simples reação passe a ter um duplo sentido para mim. Uma frase que pode ser um simples comentário eu posso acabar analisando demais e utilizando como crítica pessoal. Eu lembro do exato instante dessas observações que escutei e como em questão de segundos comecei a questionar a mim mesma e analisar de frente pra trás a minha eu daquele momento.
Assim começa a constante comparação, muitas vezes comigo mesma, que se repete cada vez mais. Uma competição incessante, de sempre querer ser a melhor e melhor. É confuso dizer isso, por que afinal, o que têm de errado em querer melhorar cada vez mais? Parece a personificação do pecado capital da gula, sempre querendo mais e mais, sem nem saber o que está buscando direito.
Repensar tudo cansa, desgasta, acaba com você. A autocrítica deixa de ser algo positivo e passa a te consumir. E não é como se eu não soubesse receber críticas, pelo contrário. O que eu não sei receber são comentários avulsos que nem a pessoa sabe bem o que ela está querendo dizer. Eu não culpo ela, afinal eu que despertei esse complexo pessoal.
O que mais me machuca é que essa cobrança de pensamentos todos vem apenas de mim, afinal, ninguém pensa tanto sobre mim quanto eu mesma.
— Fani Pimenta

As frases do começo, e alguns outros fragmentos da crônica, resumem com maestria a auto sabotagem e o sentimento de talvez nunca ser bom o bastante. Me identifiquei demais. Parabéns pela escrita!