Persona non grata
- Marília de Dirceu
- há 2 dias
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Na tempestade de pensamentos que inunda minha mente e molha meu travesseiro no meio da madrugada, eu sempre me vejo voltando para o mesmo lugar. Me vejo crescer do mesmo jeito, mudando meus planos mas não meus modos. É quase uma tradição passada de pai para filho, faz tanta parte de mim quanto o sangue que corre nas veias.
Me lembro de algumas vezes que aconteceu. Quando umas colegas de bairro me ignoraram numa festa aos sete anos. Quando falavam das minhas características e eu tentava não escutar o que diziam e me escondia por trás de um sorriso amarelo aos doze anos. Quando eu descobri que as pessoas queriam somente que eu fosse uma versão minha que agradasse a elas na adolescência. Quando meu pai voltava de seus usuais isolamentos e tentava me guiar num caminho cujo eu já conhecia o destino mas mesmo assim eu ouvia as direções como se fosse a primeira vez.
Me disseram uma vez que se chama Complexo de Inferioridade. Por medo da rejeição me faço pequena para encaixar num minúsculo lugar destinado a mim na mente das pessoas. Quero ser apreciada. Quero que gostem de mim. Quero que vejam que estou tentando.
Mas eu estou melhorando, eu juro. Respiro fundo quando os pensamentos vêm e me deixo ser grande, ser eu e mais ninguém até que eu não caiba mais numa caixinha.
— Marília de Dirceu

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