Verniz de vergonha
- gabriel gonçalves
- 9 de mai. de 2025
- 2 min de leitura
Crônica por: Fernanda Young
Por muito tempo, achei que as minhas primeiras experiências tinham sido com garotos. Daqueles encontros genéricos, sem muito tato, que a gente guarda só pra dizer que aconteceu. Mas não. Com o tempo — e silêncio, e suspiros fora do lugar — comecei a desconfiar da minha própria memória. Por que aquela história sempre parecia uma cópia colada? Uma mentira contada tantas vezes que virou verdade?
A primeira vez, de verdade, não foi com um garoto. Foi com ela.
A gente dizia que era brincadeira. Que era só curiosidade. Era uma dessas tardes em que o sol atravessa a janela e pinta a pele da gente com listras douradas. Estávamos no meu quarto, deitadas, dividindo segredos como quem divide fôlego. Havia algo no ar que nenhuma de nós nomeava, mas ambas sentíamos.
Tudo aconteceu de forma silenciosa e gradual. Os corpos se aproximaram com cuidado, como se tateassem um território novo, mas esperado. Não tinha roteiro. Não tinha pressa. Era o tipo de momento que só acontece quando ninguém está tentando se esconder.
Lembro da sensação de estar inteira ali, presente. De ser vista. E de ver.
Mas depois... eu calei. Apaguei. Reescrevi essa memória com letras heteronormativas e um verniz de vergonha. Como se ter vivido aquilo fosse um erro juvenil, um desvio.
Levei anos para admitir que aquela foi a minha primeira vez. Pela entrega. Pela presença. Pelo susto bom de se reconhecer em algo que parecia não ter espaço no mundo ao meu redor.
Hoje, quando fecho os olhos, não vejo mais aquela cena com culpa. Vejo com clareza.
E lembrar disso, agora, sem medo, já é uma nova experiência.

Esse texto tem uma fluidez gostosa. Gostei muito da sua crônica.
Adorei a crônica!!! Me fez lembrar de como nenhuma experiência é individual,quando criança passei pelo mesmo. Adoro sua escrita leve e lúdica, passaria horas lendo textos seus.
Estivemos unidas essa semana para matar a maldita Vergonha! Que lindo isso, Fernanda. Vejo que optou por caminhos mais diretos e objetivos que o usual nessa crônica. Talvez, seja essa precisão que precisamos para encarar face a face o silenciamento que essa sociedade heternormativa nos impõe. Mais uma linda crônica!
Que bom que você conseguiu ressignificar sua memória com base no que realmente sente, e não no que uma sociedade que molda preconceitos espera. Parabéns pela crônica.
É notório a delicadeza e coragem com que você reconstruiu e revive essa memória. Como sempre, você não falha em nos entregar um texto lindo. Completamente encantada por você!