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Verônica

  • Foto do escritor: Isabela Pelluso
    Isabela Pelluso
  • 11 de abr. de 2025
  • 2 min de leitura

Crônica por: Fernanda Young


Desde o dia em que abri meus olhos ela esteve lá comigo. Sério, tenho a impressão de que sou extremamente ansiosa desde a infância. Os momentos em que eu passava imaginando qual seria a minha reação se minha mãe morresse, se minhas amigas brigassem comigo ou, sei lá, se eu descobrisse um câncer — já era a maldita da Verônica ali. Verônica, no caso, é como resolvi chamar a ansiedade. Porque parece mais fácil lidar com ela quando tem nome. Mas a verdade é que ela nunca me deu escolha.

Ela me acompanha em tudo. Antes de dormir, quando tudo silencia e só sobra eu e minha cabeça, ela senta ao meu lado e começa a falar. Fala sobre o que eu fiz de errado, o que poderia dar errado, o que provavelmente vai dar errado. Não importa se foi um dia bom. Verônica não deixa que eu me iluda. Ela me lembra que a tranquilidade é passageira, que a felicidade é só distração. Que o chão ainda pode cair a qualquer momento.

Tem dias em que eu olho ao redor e fico pensando como é a vida de quem tem a cabeça boa. Quem sente as coisas na medida. Quem chora quando tem motivo, sorri sem medo do que vem depois, dorme sem precisar negociar com os próprios pensamentos. Deve ser leve. Deve ser justo. Mas não é a minha vida. Eu nasci com Verônica do lado — e ela é insistente, dramática, exaustiva.

Não tem final feliz aqui. Não tem redenção. Só essa convivência forçada com alguém que mora dentro de mim, mesmo sem ser convidada. Ela não vai embora. E às vezes, confesso, já nem sei mais quem seria eu sem ela. Talvez nada tenha a ver com medo, talvez seja só o jeito que fui feita: um corpo que anda, uma mente em guerra, e a Verônica sempre à frente, abrindo caminho pro próximo caos.


 
 
 

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8 comentários


capitu
capitu
02 de mai. de 2025

A maneira com que você nomeia sua ansiedade é extremamente poética! Sua crônica é profunda e tão cheia de detalhes, parabéns por sua escrita!

📕 - Capitu

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Vinícius Souza
12 de abr. de 2025

Dar nome a algo do campo subjetivo é potente!Essa estratégia antropomórfica vai além da genialidade, é intimista e traz consigo um certo apreço até.

Parabéns, ansioso para os próximos.

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nástienka
nástienka
12 de abr. de 2025

Genial! Sua escrita é muito envolvente, Fernanda.

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Izabel Dos Prazeres
Izabel Dos Prazeres
11 de abr. de 2025

Muito criativo, Fernanda! Me parece que você foi certeira na essência de uma crônica. Verônica deve estar assustada pois você tem os mecanismos certos pra derrota-la!

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Jorge M
Jorge M
11 de abr. de 2025

A forma de descrever a Verônica, um mal que está presente em tantos de nós, mas ao mesmo tempo é algo tão único em você, é só uma parte da genialidade do texto. Parabéns pela escrita

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