VIVER É SE MOLHAR
- gabriel gonçalves
- 23 de mai. de 2025
- 2 min de leitura
Crônica por: Peter Parker
Algumas pessoas calculam, pensam, planejam e organizam tudo com réguas e lápis. Eu não. Eu sinto. Sinto primeiro, penso depois. Às vezes, eu nem entendo — mas continuo sentindo.
Quando mais novo, minha mãe me dizia que eu tinha um coração bom. Me lembro de uma vez em que esperávamos o nosso ônibus, protegidos de uma forte chuva com um guarda-chuva simples — daqueles que compramos na pressa, quando a chuva já vem alertada por trovões. Lembro de ver uma dupla de irmãos embaixo de uma barraquinha de doces, olhar para minha mãe enquanto dava as mãos a ela e chorar em prantos. Naquele dia, ao chegar em casa, minha mãe repetiu mais uma vez suas clássicas palavras: “Você é um menino de coração bom.” E, na verdade, sou assim até hoje. Me derreto fácil — igual a um picolé em dias quentes na praia.
E não se confunda, não choro muito pela tristeza — às vezes, é inevitável, como naquele dia —, mas choro pelas coisas bonitas. Sou fraco pela beleza da vida. Aquela criança brincando, meu cachorro correndo quando me vê ou o cheiro de maresia — mesmo que ela não seja tão bela pros móveis de casa. Aprendi a ver a vida pelo lado mais romântico, mais sentimental, mais intenso.
Não amo pela metade. Não choro pela metade. Não sei fingir que não ligo — mesmo que, às vezes, eu realmente não ligue. Não sei amortizar meus sentimentos. E, honestamente, nem quero aprender. Porque, no fundo, ser assim — inteiro — é o que me salva. É o que me faz sonhar com uma vida cheia de abraços e risadas, com crianças correndo pela casa, amigos rindo numa mesa contando histórias, alguém me intimando a pôr o lixo pra fora e depois me olhando com um sorriso daqueles de propaganda de pasta de dente.
Eu entendo que sentir tanto assim, às vezes, dói. Mas é também o que dá sentido. Viver sem sentir, sem se entregar, é como ir à praia e não entrar no mar. Para mim, todos os sentimentos têm que ser vividos intensamente. Se permitir sentir é como abrir as portas de uma gaiola invisível e perceber que você sempre foi livre. E, além disso, eu prefiro a bagunça e a impulsividade dos sentimentos ao silêncio e à frieza de viver uma vida meticulosamente calculada.

tomar um banho de chuva um banho de chuvaaaa aiaiaiaiaiaiaiaiaiaiaiaiaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
Sua escrita é muito boa Peter. Consegui me identificar com você.
Uma linda construção, você consegue trazer o leitor pra perto.
Ser intenso no sentimento é para poucos, pq é coragem, é se abster de pressão externa e ser somente 80 e nunca 8, é ser você criança correndo com seu cachorro mesmo sendo mais velho, é ser filho morada de seus descendentes, é ser futuro pai orgulho.
Suas crônicas dispensam parabenizações, e isso é sentimental por alguma razão.
Peter, sua escrita é tão fluida e polida, tão fácil de ler e se identificar. Mais um lindo texto! Que bom te ter de volta, fez falta!
Ps: em determinado momento sua crônica me lembrou um pequeno conto de Drummond chamado “Aquele bêbado”, que fala sobre se embriagar da beleza da vida. Acho que vale a leitura!