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Águas que mancham almas

  • Foto do escritor: Isabela Pelluso
    Isabela Pelluso
  • 11 de abr. de 2025
  • 2 min de leitura

Crônica por: Nora Quartz


Quando você sorriu para mim, será que já planejava isso? Enquanto cumprimentava minha mãe e brincava com meus irmãos, essa ideia você já tinha? 


Dia 31 de dezembro, época de celebrações e despedidas. Na cachoeira que eu tanto insisti em ir, talvez não devesse ter insistido. 

De repente, todos se sentam para comer e ficamos só eu e você. Você diz: "Tem um lugar que você precisa conhecer", e eu sigo, cegamente confiando. 


Será que eu desejei?


Quanto mais da mesa nos distanciamos mais medo preenche meu corpo que, em sua figura de autoridade acreditando, continua se movendo. 


Será que eu queria? 


Você, percebendo, talvez, meu receio, me segura, me leva pela mão e diz, sorrindo, para eu relaxar. Assustada com todo o caminho percorrido e a ausência de pessoas, olho para trás e digo que devemos voltar. Em resposta, ouço o seu barulhento silêncio, sentindo, mais uma vez, o corpo se arrastar.


Não, eu não queria. Mas, então, por que deixei-me levar?  


Minha mente, embaralhada, já estava em outro lugar. Tentava, covardemente, não pensar no que estava acontecendo e no que poderia acontecer. Estava paralisada demais para correr, mas nem tanto para continuar. Cada parte do meu corpo e alma foram destruídos pelos seus toques. Apodrecida, assim me sentia. Quis chorar, quis bater, quis gritar, quis voltar. Voltar para os braços de minha mãe. Voltar para não ter insistido em estar ali. 

Voltar para minha, agora, depravada, inocência. 


Em um impulso repentino, me levantei. Sua feição assustada levou-me a questionar se eu havia, em algum momento, e por acaso do momento, dado permissão para aquilo. Senti-me culpada, talvez ele só estivesse fazendo o que achou ser minha vontade, uma vez que, se não me levou à força bruta era, então, meu desejo estar ali. 

Por que eu estava ali?


Invadida, envergonhada, culpada, enjoada, suja.


Voltamos e, escrevo com certeza, esse momento foi o mais torturante. Você me guiava pelo caminho de pedras nas águas, sem nenhuma afeição anterior. Percebi o quanto fui ingênua. 

Sentia todos os olhares em mim até mesmo pelas costas, todos riam, todos comentavam, todos estavam horrorizados. Pareciam ler em meus olhos tudo aquilo que eu havia, e não havia, feito. Vergonha. Culpa. Nojo. Dor. 


Nunca contei para ninguém. 


Não suportaria rever a imagem de teu rosto tatuada em meu cérebro mais uma vez. Seu nome não recordo, mas seus toques nocivos caçarão, para sempre, gestos de afeto genuínos a mim concedidos. Para você, foi só mais um dos momentos da véspera do ano que vinha. Para mim, seriam manchados todos os anos que seguiria. 

Escrever isso corrompe minha mente com dúvidas. Será que foi culpa minha?

 
 
 

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2 comentários


nástienka
nástienka
12 de abr. de 2025

Acho que, entre todos os textos, esse foi o que mais mexeu comigo. Sinto muito que você tenha passado por isso, Nora. Saiba que a culpa nunca foi sua. Desejo de todo coração que você fique bem ❤️

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Peter Parker
11 de abr. de 2025

Não sei como comentar. Mas tenha certeza, culpada você jamais será. 🕷️

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