águas turbulentas
- gabriel gonçalves
- 9 de mai. de 2025
- 3 min de leitura
Crônica por: Clarice Bei
Janeiro de 22. Mais um verão normal com meu pai. Banho de rio, pulo na cachoeira e feira no domingo, rotina dos dias quentes que vivíamos. 26 de janeiro. Um dos últimos dias de viagem, estávamos aproveitando mais um dia como todos os outros. Consumidos pela preguiça decidimos ir à cachoeira mais próxima. Um barzinho na cachoeira descendo a rua da casa de meu pai. Estava cheio, encontramos uma pequena mesa no canto, sentamos, colocamos nossas coisas em uma cadeira, pedimos sucos e fomos dar um mergulho.
Estávamos habituados a frequentar aquela cachoeira, porém não a conhecíamos completamente, brincávamos de pular e nadar em volta de uma grande pedra. Cansados de nadar em círculos avistamos um pouco mais distante uma mulher com uma criança, nunca tínhamos ido nesse pedaço da cachoeira. A curiosidade falou mais alto, e juntos pensamos em explorar aquele pedaço, até porque se uma mãe está ali com o filho pequeno com certeza não é perigoso, foi o que pensamos.
Começamos a nadar na direção escolhida. De repente sinto um puxão forte, imediatamente olho para meu pai e peço ajuda, ele preocupado estende a mão enquanto tenta sair e me puxar ao mesmo tempo, pois também foi fisgado. Nado na direção contrária da correnteza, já sem ar sentindo o medo da morte se aproximando, o puxão é tão forte que na briga com ele ralo o pé em uma pedra, e acabo desistindo da luta. Ele consegue sair, mas eu fico, sou puxada até a ponta da cachoeira, logo antes da queda d’água, há um tronco assim como nos desenhos animados, me agarro nele, não há solução, penso, já aceitando a ideia da morte, para mim ela viria de uma forma ou de outra, seria na queda ou agarrada no tronco até meu último suspiro.
Quando meu pai chega até mim ele percebe a situação que nos metemos, após pensar por alguns segundos ele mergulha a fim de tentar passar para o outro lado do tronco e ver se não havia algo em que pudéssemos subir para sair dali. Um tempinho depois e sinto o debater dele sob a água, tinha ficado preso debaixo do tronco, meu desespero se multiplicou, tentei soltar um braço do tronco para ajudar ele a sair dali debaixo, deu certo. Nesse ponto alguns minutos já tinham se passado, estávamos ficando fracos, nossos braços não aguentariam mais muito tempo. Decidimos subir no tronco e passar para a margem, atravessar por ali até que pudéssemos voltar para a parte segura, meu pai foi na frente e me ajudou a subir, estava tremendo, com o coração saindo pela boca. Havia muito mato, consequentemente muito limo, tudo escorregava, não achava que sairia viva, segui ele pela margem meu pé ardia do ralado, e agora havia um novo risco, cobras escondidas no mato que poderiam chegar até nós.
Os segundos atravessando pareciam os últimos da minha vida, mas enfim chegamos à superfície. Foi como chegar de uma batalha, machucados, descabelados, ofegantes, senti que estava em um filme. Todos olhavam para nós sem entender o que tinha acontecido, pensando de onde viemos, nos sentamos na nossa mesa, os sucos já estavam quentes mas nem nos importamos, pois por pouco quase não teríamos conseguido bebê-los. Há experiências que nos marcam, essa está para sempre marcada em meu coração que acelera só de relembrar o desespero do momento.

Um relato em forma de crônica. Muito envolvente e intenso o seu texto. Me prendeu até a última palavra.
Demorei pra ler e só agora percebo o erro que cometi. Uma emocionante narrativa muito bem conduzida, que passa a emoção necessária, parabéns pelo texto.
Que texto envolvente Clarice, meu senhor! Tava angustiado lendo a cada linha dessa história, muito bom texto, que bom que ficou tudo bem para os 2 no final.
Que relato intenso! Consegui sentir o desespero junto com vocês… ainda bem que deu tudo certo no final.