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  • Lady Whistledown
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Querido e gentil leitor, peço que me perdoe pela deveras demora das últimas duas semanas.


Mas tenho observado o tic-tac do relógio, seguido pelas chaves batendo no cadeado do portão de aço. De repente, sinto a minha pele morena queimar ao sol e minhas pernas correrem contra o tempo, que diz tic-tac cada vez mais rápido. Quando dou por mim, estou sentada em uma sala deveras lotada, com gente de cada parte deste grande Rio de Janeiro.


Mas por que a minha enrolação em chegar ao ponto crucial desta história? Este é o ponto: desde que vim para esta cidade, o sentimento de incapacidade tem me dominado. Pois todos da aula são tão sabidos e bem informados, lutando contra o tic-tac para ver quem responde primeiro ao professor e mostrar quem sabe mais.


E, ao final de todas as aulas, me questiono: como cheguei aqui? Procrastino e enrolo dia e noite para fazer breves leituras e, no final de cada aula, saio mais confusa do que quando entrei. O tic-tac do relógio não para, e eu continuo constantemente a procrastinar, sabotando o sonho de entrar em uma universidade pública.


Parece bobo, mas esse sentimento constante de autodepreciação não sai de mim. Como posso não saber de nada e estar aqui? Quero voltar para casa, pois me prometeram que aqui seria uma grande oportunidade, mas me sinto burra. Incapaz. Só quero a minha mãe. Quero poder contar as horas para, por fim, chegar em casa depois de um dia longo na escola. 


Sinto que em breve tudo irá acabar e, por fim, voltarei ao meu lugar, do qual lutei para sair e ir realizar o sonho de voar e sentir o tic-tac do meu grande e promissor futuro — futuro este que estou questionando abandonar. Vejo-o escorrendo lentamente pelas minhas mãos.


Vagarosamente e tardiamente, Lady Whistledown.


Lady Whistledown

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