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400 mil quilômetros

  • Ýsis Devereaux
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

A Terra vista de longe, não tem fronteiras. Não tem pressa. Não tem barulho. É apenas uma ‘quase’ esfera azul suspensa no silêncio. A mais de 400 mil quilômetros dali, quatro pessoas flutuavam dentro de uma nave - tão pequenas diante da imensidão do universo, tão humanas dentro dele. Haviam viajado mais longe do que qualquer mapa cotidiano pode explicar.


E ainda assim, o que mais pesava naquele momento não era a distância. 


Era a ausência. 


No meio de cálculos, coordenadas e protocolos, surgiu um pedido simples: dar nome a uma cratera na lua. Uma cratera na Lua, “UAU”, algo completamente burocrático e relativamente comum na vida de astronautas - se não fosse pela escolha do nome: Caroll


Não era uma cientista, não era uma exploradora. Não havia deixado pegadas na Lua. Mas havia deixado algo muito mais difícil de medir: presença, amor, memória, paixão.


Dentro da nave, o silêncio mudou de tipo. Já não era o silêncio do espaço - era o silêncio de quem lembra do quanto amou. O comandante chorou. Os colegas se aproximaram. E por um instante, a maior distância já percorrida pela humanidade pareceu encolher diante de algo muito mais próximo e inevitável: o vínculo entre as pessoas e as distâncias imensuráveis que eles podem percorrer ao ponto de nunca conseguirem ser medidas.


Ali, longe de tudo, o comandante, ao pedir para que a Lua guardasse o nome de sua falecida esposa, não pensava em conquistas, recordes ou feitos históricos.


Estava pensando em alguém que podia não estar lá para recebê-lo no seu retorno à Terra, mas sempre estaria em seu coração e na imagem de suas filhas. E talvez seja isso que mais define a nossa existência: podemos cruzar o espaço, tocar outros mundos, alcançar distâncias imensuráveis… mas no fundo de nossas almas, continuamos sendo profundamente atingidos por aquilo que não cabe em nenhuma medida - a saudade eterna.


Ýsis Devereaux

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