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A MAIOR “DEMOCRACIA” DO MUNDO

  • Hermes
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Enquanto Ana aprendia a amarrar os próprios sapatos pela primeira vez, um governo eleito era derrubado em um golpe no Irã. Carolina fazia a lição de casa distraída, ansiosa para descansar, ao mesmo tempo em que um líder era deposto e assassinado no Congo. Dona Lúcia temperava o feijão e gritava da cozinha para que os filhos lavassem as mãos, quando vilarejos inteiros eram atravessados por fogo no Vietnã. Já Roberto corria atrasado para o trabalho e reclamava do trânsito, ao passo que tanques avançavam sobre o Chile e uma democracia era esmagada antes do almoço.

Júlia discutia política em uma mesa de bar, defendendo liberdade e democracia, ao mesmo tempo em que ditaduras eram organizadas, financiadas e executadas em diferentes pontos da América Latina. Marcelo trocava de canal, entediado, procurando algo melhor para assistir, enquanto cidades eram invadidas no Iraque. Por sua vez, Diogo se arrumava para ir à escola, não tão confiante para a prova do dia, quando a primeira presidenta eleita no Brasil sofria um golpe de Estado.

No momento em que você lia esta dolorosa crônica, povos palestinos, libaneses e iranianos sofriam com destruição em massa, invasões, violações corporais e o tipo de adeus mais cruel aos familiares. Ataques eram executados pelo governo supremacista de um “país” que se esquecera da dor da perseguição e financiados pelo governo fascista de uma nação que ignorava ter sido construída por imigrantes.

A maior referência do Ocidente sempre soube operar assim: em casa, América para os americanos; fora dela, intervenção por interesses próprios. Em casa, direitos humanos para aqueles considerados superiores; fora dela, repúdio e desumanização. Uma “democracia” que, para sustentar seu egoísmo corrosivo e capitalismo desenfreado, derrubava outras anualmente e financiava genocídios ao redor do globo em um plano imperialista.

Em algum momento no tempo, Pedro se formava em História. Camila se casava com Bruna. Maite fazia planos para o futuro. Thomas mergulhava em uma jornada de autodescoberta.

Lamis, por outro lado, já sabia distinguir o som de drones antes mesmo de aprender a escrever o próprio nome. Afinal, no lugar em que nascera, crescer deixou de ser um processo natural e passou a ser um alto risco.

Naquela manhã, Karim saiu de casa como em qualquer outro dia. Talvez tenha pensado no que faria mais tarde junto da família, talvez tenha deixado algo pela metade. Não chegou a terminar.

Enquanto o mundo seguia — trabalhando, estudando, lutando, sonhando, vivendo — o som veio de cima. Não era desconhecido. Tinha origem, patrocínio, discurso. Tinha nome. Ainda assim, não houve tempo para se aprofundar em geopolítica, interesses estratégicos ou alianças militares.

Houve apenas o impacto. E, depois, o silêncio.

Em algum lugar distante, aquela morte seria justificada como “necessária”. Seria explicada, enquadrada, racionalizada; tratada como um mero efeito colateral para um bem maior.

Mas, ali, foi apenas isto: o fim de uma vida comum, com objetivos e sonhos, interrompida por uma guerra que nunca foi sua, mas sempre teve fonte, motivo e dono — a maior “democracia” do mundo.


— Hermes

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1 comentário


Kris
Kris
há 2 dias

Texto mais longo do que o padrão, mas sinceramente, precisa ser mesmo ora descrever todo mal causado por este país. Belo trabalho.

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