Não consuma a pílula vermelha
- The Albatross
- há 2 dias
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Outro dia, enquanto seguia minha programação habitual e procurava por uma receita de alguma sobremesa que salvaria minha noite no Instagram, me deparei com um vídeo que prometia revelar “a verdade que as mulheres escondem”. Sempre começa assim, né? Como se metade da população mundial tivesse feito uma reunião secreta, provavelmente no grupo do WhatsApp “União Misândrica”, só pra enganar o João, 23 anos, que acabou de levar um fora. Curiosa e um pouco masoquista, resolvi assistir.
Em poucos minutos, descobri que existe toda uma ciência, quase uma engenharia, por trás do fracasso amoroso masculino. Não é timidez, falta de comunicação ou, sei lá, personalidade. A culpa é de um sistema complexo chamado “hipergamia feminina”, que aparentemente transforma qualquer mulher em uma espécie de investidora da bolsa emocional. Fiquei impressionada. Quem diria que eu, uma simples pobre coitada, estava participando de um mercado tão sofisticado sem nem saber?
Eu acho curioso como o discurso sempre começa com algo até compreensível: solidão, frustração, rejeição… Emoções humanas, básicas e reais, não é? Só que, em algum momento, eles decidem que sentir isso não basta, é preciso transformar tudo em teoria. E, de preferência, em inimigo (ou inimigas).
E o pior é que eles também têm um dicionário próprio: “alpha”, “betinha”, “sigma”, “chad”... Um zoológico inteiro de classificações que parecem saídas de um documentário mal financiado sobre comportamento animal. Só que, nesse caso, os habitats naturais são YouTube, Instagram, Discord e PRINCIPALMENTE o falecido Twitter, nunca mais houve um dia normal naquela rede.
O que me fascina é a estética disso tudo. Porque não basta sofrer, tem que sofrer com identidade visual. Música dramática, frases de efeito CRINGES, cortes rápidos e, claro, a promessa de que você vai se tornar “um homem de valor”. A vontade é de rir pra não chorar.
Eu sempre fico curiosa sobre o que exatamente significa esse tal valor. Vem com nota fiscal? Dá pra parcelar?
O mais irônico é que, enquanto esses discursos falam tanto sobre controle; controlar emoções, controlar mulheres, controlar a própria vida… O que se vê é justamente o oposto: uma geração sendo lentamente controlada por um feed que transforma insegurança em conteúdo consumível e rentável.
No fim das contas, parece menos sobre “despertar para a realidade” e mais sobre encontrar uma explicação confortável. Porque admitir que relacionamentos são complexos, que pessoas são diferentes e que, às vezes, a gente só não deu certo com alguém… isso exige maturidade, o que o betinha médio aparentemente não tem.
— The Albatross

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